Opinião de Luís António Santos
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Que retrato de um presidente pode fazer-se em 100 dias?

09 jun, 2016 • Opinião de Luís António Santos


Valerá a pena perguntar se Marcelo vai arriscar manter-se tão presente, tantas vezes, em tantos lugares, durante muito mais tempo.

Falta pouco mais de uma semana para termos os média nacionais ocupados com a passagem de cem dias sobre o início do mandato presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa.

Far-se-ão, de certeza, inúmeros balanços sobre a sua prestação política, mas talvez importe ponderar, também, a estratégia de comunicação do novo presidente - a sua aplicação no terreno, a sua eficácia relativa e, sobretudo, a sua resistência ao tempo.

Tornou-se praticamente impossível a qualquer cidadão que viva neste país e que tente manter-se informado escapar a uma presença regular de Marcelo nos alinhamentos informativos. Foi assim nos primeiros dias de mandato (e isso seria mais comum), mas continuou a ser assim nos dias seguintes. E nos seguintes. E depois, também. Ocasiões houve - no dia da final da Taça de Portugal, por exemplo - em que nos foi possível ver o presidente em eventos diferentes, em lugares diferentes, com notícias encadeadas uma atrás da outra num mesmo noticiário.

Há, nesta estratégia deliberada, ganhos efetivos imediatos. A dose generosa de afetuosidade que parece saber distribuir com um talento ímpar faz-nos esquecer num ápice o seu antecessor e, mais do que isso, recupera para a presidência um lugar de real influência não apenas no xadrez da política parlamentar mas ainda no simbolicamente mais relevante xadrez das mais ou menos organizadas forças sociais. No processo, tenta reconstruir a sua própria imagem pessoal, agora distante da polémica e, sobretudo, da intriga.

Há, em todo o caso, também já algumas indicações dos riscos que corre uma figura com necessidade de intervenção permanente num cenário de (talvez) algum excesso de exposição mediática. Dois exemplos claros emergiram nos últimos dias: um texto preparado por pais que contestam as decisões recentes do ministério da Educação sobre alguns contratos de associação, onde se dizia que o sr. presidente lhes teria dito isto e aquilo, precisou de ser desmentido de imediato e informações de fontes anónimas, sobre um alegado distanciamento de Belém relativamente à estratégia orçamental do governo, conseguiram abrir caminho para a primeira página do "Expresso" (em mais um exercício deplorável a que aquele semanário, infelizmente, já nos habituou).

Ambas as situações não seriam surpreendentes no enquadramento do "Marcelo levezinho e bem disposto" que sempre gostou de "fazer mexer" a vida política nacional mas são, agora, no novo perfil que a golpes certeiros se quer talhar, indicadores de alguma porosidade.

E, por isso, à porta dos tais cem dias de presidência, valerá a pena perguntar se Marcelo vai arriscar manter-se tão presente, tantas vezes, em tantos lugares, durante muito mais tempo ou se vai recolher a territórios mais serenos e mais prudentes. O ‘velho’ Marcelo escolheria sempre a excitação da corda bamba. O "novo"’, o que fará?

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  • jose
    13 jun, 2016 Lisboa 16:40
    É claro que este Sr. Jornalista precisa de escrever, porque senão,... perdia o taxo, está claro!.. Então, toca de procurar aquilo que ele mais vende no momento, ou seja a curiosaidade de alguns à espera que o Presidente falhe. Não há dúvidas que o articulista, com este tema e estas dúvidas procura vender, e não informar. Que se lixe o País,.. interessa mais o público, bem informado ou não, e que este Sr. faça o seu papel, fique bem ou mal o Presidente. Já repararam que no dia em que por acaso o Presidente falhe, o que é que não será ler um analista desta extirpe? Nem vale a pena mais dizer. Ao que chegou o jornalismo desarticulado...
  • Joana Santos
    13 jun, 2016 Lisboa 12:10
    Por mim, começo a ficar farto de tanta aparição e verborreia. Alguém que diga à criatura que se reserve, já não há pachorra para o ver em tanto lado, de sorriso prazenteiro, aos beijinhos, aos abraços e às risotas. Tudo cansa. Começa tudo a cheirar a encenação barata. E depois o que é importante fica para trás ou mal resolvido. A q propósito estas feriazitas em Paris qdo o país assiste aos precalços sobre a CGD e aí, ele se cala, assiste ao desemprego crescente e ele, moita? E alguém entende tb o come e cala do BE e do PCP, que aos actos dizem nada? Não levantam a voz às manigâncias q o governo está a preparar-se para fazer na CGD, a atribuir salários indecorosos e a injectar mais uns qtos milhões que nos vão sair do bolso? Perderam o pio desde que se associaram a Costa, percebe-se, coitados. Mas as alianças de momento valem tudo? Depois a malta admira-se que a abstençao seja cada vez maior e que apareçam uns Tiriricas, uns Bellini , uns Podemos, umas Frentes Nacionais e quejandices a disputar a coisa. Pobre país que não tem governantes à altura. Quando o desafio é um pouco maior, dá nisto. Andamos em folestria lá fora e cá dentro que se amanhem.
  • jose Magalhães
    10 jun, 2016 Lisboa 10:52
    Desculpe, mas não me parece que o Presidente siga qualquer estratégia, ou tampouco se apoie em qualquer empresa de marketing ( como habitual nos políticos) que lhe guarde ou proteja a imagem. A estratégia é dele próprio e nasceu com ele. Não acredito também que alguma coisa vai mudar no futuro do seu mandato. Querer prever este facto, é querer vender jornal, diminuindo a superior inteligência deste Presidente. Interessa muito mais a análise correcta e a boa informação no sentido daquilo que o Presidente já fez, e não futuro do que vai fazer.
  • Alberto
    09 jun, 2016 Funchal 15:42
    Demonstra que Goucha, Cristina Ferreira ou Teresa Guilherme podem e devem ser candidatos nas próximas Eleições.