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Manuel Pinto
Opinião de Manuel Pinto
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​O mal-estar de uma geração

23 mai, 2016 • Opinião de Manuel Pinto


Apesar dos progressos feitos, falta cumprir a democracia e essa passa por um trabalho de formação cívica que deve iniciar-se bem cedo e que mal irá se se limitar a um conjunto de informações e conhecimentos sobre o funcionamento das sociedades democráticas.

O palco do evento era o Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco. O Presidente da República tinha convidado para ali um certo número de estudantes, o ex-presidente, Ramalho Eanes, o constitucionalista Jorge Miranda e, como moderador, o jornalista Joaquim Letria. Motivo: evocar os 40 anos da eleição do primeiro PR em democracia, de resto, um filho da terra.

Eanes não podia ter começado melhor: desafiou os jovens a provocar a mesa, com as suas inquietações e perguntas e dispôs-se a aprender com eles. Mas o relato da sessão que nos foi trazido pelo Público deixa a entender que quem foi, afinal, provocador foi o próprio Ramalho Eanes, ao advertir que “a República de Abril oferece todas as liberdades, mas esqueceu-se que é necessário criar cidadãos, sobretudo através da educação”. “Pouco se fez - acrescentou - para que a cidadania adulta, exigente e participativa existisse".

Apesar dos progressos feitos, falta cumprir a democracia e essa passa por um trabalho de formação cívica que deve iniciar-se bem cedo e que mal irá se se limitar a um conjunto de informações e conhecimentos sobre o funcionamento das sociedades democráticas. O ex-presidente deu o exemplo do envolvimento dos alunos na avaliação dos seus professores. Mas poderia ter ido bastante mais longe, colocando sobre a mesa as múltiplas formas de co-responsabilizar as crianças e jovens em processos sobre os quais podem e devem ter uma palavra a dizer, na família, na escola e na comunidade.

Com se pode pretender a participação se o projeto educativo for estruturado em torno de um modelo unilateral e consumista que só pode favorecer a passividade? Eanes não desconhece, certamente, o que sobre estas matérias estipula a Convenção dos Direitos da Criança, que hoje é lei portuguesa. Há quem veja na abertura e acolhimento da opinião e participação dos mais pequenos, consagradas nesse diploma, uma espécie de demagogia dos adultos ou até uma demissão do seu papel de educadores. Julgo ser de ir por outro caminho: quem lida hoje e aqui com as gerações mais novas depara não apenas com uma grande passividade, mas sobretudo com uma ‘cultura’ de desmotivação e de falta de sentido que inquieta. E se isso não é generalizado também não pode surpreender muito, se olharmos para as perspectivas de futuro que estamos a oferecer aos jovens.

O mal-estar de uma geração não pode deixar de preocupar, porque pode vir a tornar-se na recusa das referências e valores que, apesar de tudo, fundam as sociedades democráticas.

Mas quem se dispõe, como tentou Eanes, ouvir os sonhos e fantasmas dos alunos, mesmo que, à primeira abordagem, eles não saibam ou não queiram coloca-los sobre a mesa? Quem se dispõe a dar-lhes voz e lugar, participando na construção do seu futuro?

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  • Hélder Ramos
    23 mai, 2016 Ovar 17:34
    Esse esforço de construção está, não raro, nas mãos dos professores, em quem muitas pessoas deixam pouco respeito por isso. Querem o que é imediatamente visível, como se os seres humanos em formação fossem pequenas máquinas. Há, e há muito tempo, um género de democracia, representada por inúmeros reformados que alimentam egos, que não deixa espaço à afirmação das gerações mais novas, por temer a desmontagem de formas antigas de estar na cidadania. Para esses, a cidadania até existe, mas só se estiver nos moldes previamente estabelecidos, ora pelo "status" deste ou daquele cargo, ora pela tal disciplina partidária, totalizadora, afinal. Para educar os mais novos, temos de pensar em reeducar os mais velhos, pelos modelos desusados que insistem em perpetuar, sob pena de estarmos (nos próximos 40 anos) a lamentar mais inúmeros vícios velhos em inúmera gente nova. Desgraçadamente, desta democracia, não!