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Manuel Pinto
Opinião de Manuel Pinto
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Cuidar das pessoas

11 abr, 2016 • Opinião de Manuel Pinto


Quando tantos pretendiam testar o seu conservadorismo ou progressismo, Francisco troca as voltas e vem recordar o sentido da viagem (a busca da alegria do amor - “Amoris Laetitia”), mas pondo-se a caminhar connosco, ao nosso lado.

Pelos vistos, a frequente presença do Papa Francisco nos media e nas redes sociais começa a incomodar alguns, incluindo membros da Igreja. Depois do Twitter e do YouTube, abriu espaço no Instagram e a mediatização dos gestos, dos discursos e das visitas pastorais, um pouco por todo o mundo, não pára. A próxima será uma visita-relâmpago aos refugiados na ilha grega de Lesbos, situada no mar Egeu, frente à grande península da Anatólia. Será mais uma forma de não deixar que os focos mediáticos e políticos abandonem este drama que a União Europeia, a troco de dinheiro, pretende fazer de conta que não é seu. Bergoglio inscreveu o assunto na sua agenda, logo a abrir o ‘mandato’, com a visita a Lampedusa, sem suspeitar, então, da dimensão que o assunto ganharia entretanto, enquanto desafio humanitário.

Está visto que a estratégia do Papa não é a das grandes e multitudinárias visitas, cheias de pompa e oficialismo. Essas não podem deixar de existir, mas a lógica buscada parece ser outra: estar e fazer-se próximo daqueles que necessitam e para quem o bispo de Roma pode ser lenitivo e apoio. Em certo sentido, Francisco, ao mesmo tempo que deu continuidade ao tipo de viagens papais iniciadas pelos seus antecessores, iniciou a sua ‘desconstrução’, inscrevendo-as numa lógica de maior proximidade das igrejas locais e das populações que sofrem.

É, de resto, esta proximidade física e ‘corporal’ dos mais carenciados e abandonados dos centros de poder, muito para além dos espaços e lógicas eclesiais, que torna a presença mediática deste Papa diferente. É a atenção e humanidade que tocam e interpelam, num jogo intenso e fecundo entre o dizer e o fazer.

É também uma linguagem que, eu diria, pela primeira vez, começa a ser a da gente comum. Uma linguagem que se entende porque ele nos entende. Uma linguagem que não é um adesivo demagógico para agradar, mas que provém de quem procura dizer o que lhe vai na alma e em que(m) acredita, reconhecendo o outro não como súbdito mas como interlocutor, na sua dignidade, busca e diferença.

Mesmo agora, na exortação apostólica sobre a família, quando tantos pretendiam testar o seu conservadorismo ou progressismo, Francisco troca as voltas e vem recordar o sentido da viagem (a busca da alegria do amor - “Amoris Laetitia”), mas pondo-se a caminhar connosco, ao nosso lado. Tornando claro que o mais fácil (ainda que difícil) teria sido definir a norma, velha ou nova. Mais difícil é entender que há um discernimento a fazer em casa situação, sempre pautado por um valor supremo: cuidar das pessoas.

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