Opinião de Manuel Pinto
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​O simplex da linguagem

14 mar, 2016 • Opinião de Manuel Pinto


Nos últimos anos, já por duas vezes que oiço o jornalista Adelino Gomes chamar a atenção para a dificuldade de entender boa aparte do vocabulário de muito do jornalismo que se produz e difunde em Portugal.

Em pelo menos dois encontros públicos, desafiou meios de comunicação ou associações do sector dos media a patrocinarem um estudo sobre o assunto e a convocar algum centro de investigação a meter mãos à obra. Aquele jornalista tem citado a pesquisa, já com largos anos, da iniciativa de uma rádio pública belga, que concluía que o cidadão comum desconhece o significado da maioria das palavras com que as notícias são apresentadas em público.

Se isto for verdade também entre nós – e nada indica que assim não seja – estaria encontrado um dos factores para o desinteresse no acompanhamento regular da actualidade. Um dos segredos da efectiva comunicação é que quem entra no jogo comunicativo se coloque no papel do interlocutor. O mesmo se diga para a informação. Quem se lembrou de colocar na rede de transportes públicos frases como “é obrigatório obliterar o bilhete” terá a noção que um termo como obliterar está seguramente fora do vocabulário corrente da maioria dos cidadãos? De resto, desde as bulas dos medicamentos às informações de diversos serviços (seguros, bancos, electricidade, etc), é frequentemente o discurso autocentrado que predomina. Isto para não referir o modo arrogante e hermético como as finanças se dirigem, habitualmente, aos contribuintes.

Mas, voltando às notícias, é sabido que a sociedade se complexificou e se especializou numa grande diversidade de campos e subcampos e cada um deles tende a ter o seu linguajar próprio. Mas quem tem de mediar a informação para o grande público deve ser capaz de traduzir os conceitos e os termos técnicos, a começar pelas palavras e expressões em inglês. Chega a parecer ser entendimento de alguns mediadores da comunicação pública, incluindo os jornalistas, que quanto maior for a dificuldade de compreensão do que difundem, maior será a qualidade.

O simplex (conjunto de programas de simplificação) nos serviços públicos é naturalmente de aplaudir. Mas deve envolver também a clareza e simplicidade da linguagem por eles utilizada. Neste contexto, a realização do desafio de Adelino Gomes, que não contradiz nem o rigor nem a qualidade da escrita, viria provavelmente dar fundamento e força a acções com tal direcção.

Comentários
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  • António Ferreira
    25 out, 2016 Faro 00:23
    E que dizer do patois usado pelos tribunais?
  • Rui Martins
    15 mar, 2016 Lisboa 09:34
    Tenho algum receio que se esteja a confundir duas coisa que são distintas. A primeira é o que significa nos dias de hoje, no respetivo contexto tais palavras, a segunda significados da origem etimológica que essas palavras possam ter tido ou ainda tem. Por vezes estas duas realidades estão distantes no significado , na familiaridade, e até na afetividade. Um língua está sempre em mutação, o que é realmente novo é a velocidade a que muda. Isso não é um problema exclusivo da língua pois se a realidade ultrapassar o cidadão acaba-se o mercado, isso é valido para a imprensa como para qualquer área de atividade.
  • António Costa
    14 mar, 2016 Cacém 10:13
    "...o cidadão comum desconhece o significado da maioria das palavras..." e a "...diversidade de campos e subcampos e cada um deles tende a ter o seu linguajar próprio" são dois pontos muito importantes e de certo modo complementares. O problema é que o "desconhecimento das palavras" esconde outro muito pior e muito mais grave: o desconhecimento dos conteúdos, dos conceitos que as tais palavras representam. E numa sociedade, em que a Democracia se baseia na "livre escolha", como se pode escolher entre duas "alternativas" se não se tem ideia nenhuma do que está em causa? É devastador. Principalmente quando o "desconhecimento" atinge a classe dirigente....
  • Joao M Maia Alves
    14 mar, 2016 Cacém 09:10
    Pode-se simplificar sem prejuízo da correção. Lembro-me de na minha companhia de seguros simplificarmos os textos dos contratos, aproximando-os da linguagem de todos os dias e mantendo uma certa elegância de estilo.