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Ensaio Geral
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O teatro para o actor Luis Miguel Cintra e escritora Joana Bértholo

05 mar, 2016 • Maria João Costa


A escritora Joana Bértholo e o actor e encenador Luis Miguel Cintra foram os convidados do programa “Ensaio Geral”. A edição foi gravada ao vivo na Livraria Ferin, numa parceria com a Renascença, Booktailors e Ferin.

Um tem metade da idade do outro. O actor Luís Miguel Cintra tem 66 anos, a escritora Joana Bértholo tem 33 anos. Cruzam-se na paixão pelo teatro. Para Luís Miguel Cintra “é uma maneira de viver colectivamente e de continuar a brincar como quando se era miúdo”; para Joana Bértholo, se a “literatura é como um jantar a dois, o teatro é como uma daquelas grandes mesas romanas cheias de gente”.

Luís Miguel Cintra e Joana Bértholo conversaram sobre a arte de representar e escrever para teatro no programa “Ensaio Geral”, gravado ao vivo, numa parceria da Livraria Ferin, da Booktailors e da Renascença. Numa altura em que anunciou recentemente que iria deixar de representar, o actor Luís Miguel Cintra explicou que lhe foi “indispensável durante toda a vida fazer teatro. É uma maneira de estar com as outras pessoas e de estar de uma forma brincada. É um trabalho sobretudo de imaginação”. Já Joana Bértholo explicou o desafio da escrita para teatro. A autora que tem colaborado com a Companhia Limitada e com a iniciativa “Teatro das Compras” do Festival Todos explica que “o grande fascínio é ver o texto a crescer para zonas que não tinha previsto”. É isso que a faz continuar a quer escrever para teatro, indica Bértholo, numa altura em que prepara novos projectos a apresentar, em Maio, no Teatro Nacional D. Maria II.

No “Ensaio Geral”, da Renascença, Luís Miguel Cintra falou das suas personagens como um “desafio” e do facto dos actores de hoje em dia preferirem “textos mais livres”, por oposição aos clássicos que Cintra sempre gostou de representar. Para a autora, que tem trabalhado o texto teatral contemporâneo, a escrita tem vindo a ser uma descoberta. Joana Bértholo explica que tem “descoberto que o texto é apenas mais um elemento em cena num diálogo com uma co-criação muito viva da encenação, trabalho de luz e do actor”. A autora do livro “Havia”, editado pela Caminho, disse no “Ensaio Geral” que confessou que antes considerava o “texto de uma peça como um manual de instruções”, mas tem vindo a descobrir o contrário e afirmou: “tem sido desafiante reduzir a minha importância e do texto e trabalhar mais em comunhão com os outros”.

Sobre as peças mais clássicas e mais longas, Luís Miguel Cintra afirmou que acha “mal que haja regras e se diga que hoje em dia a sociedade já não suporta uma peça longa.” E deu o exemplo: “O Hamlet esteve esgotado todos os dias.”. Cintra acrescenta “a ideia do formato tem de ser banida. Todas as pessoas têm de inventar a sua própria vida, a sua sensibilidade, o seu contacto com os outros e não têm de ser pré-formatadas. Mas a sociedade em que a gente vive é toda pré-formatada. O ensino faz isso. A criatividade foi excluída do ensino”. O actor, fundador do Teatro da Cornucópia, lamenta que “os cidadãos sejam tratados como peças mecânicas dentro de uma engrenagem que produz dinheiro para muito poucos, para uns ocultos que não se chega a perceber quem são. Esta mecanização do ser humano é uma coisa verdadeiramente monstruosa”.

Sobre o excesso de oferta cultural que hoje em dia existe, a escritora Joana Bértholo classifica-o “cacofonia” e lamenta que a sua voz artística que já nasceu neste tempo seja por vezes abafada. Para Bértholo “o gesto mais pertinente é calarmo-nos”. A autora sublinha que “quando uma peça artística dá um estado de suspensão, que é tudo o que não temos no nosso dia-a-dia, dá um foco ou canaliza-nos para uma experiencia unívoca”.

Questionados sobre a formação de públicos por Guilherme d’Oliveira Martins – presidente de Centro Nacional de Cultura e colaborador do programa - Luís Miguel Cintra afirmou que considera “péssimo” formar espectadores. Para o actor: “O Estado tem a obrigação de formar pessoas e de dar os instrumentos para as pessoas pensarem por si próprias. Não é espectadores, é artistas!” afirmou. Destacando a importância da educação, Joana Bértholo falou na necessidade de “formar os miúdos desde pequenos a valorizarem o livro e a expressão e não tirar do curriculum o lado artístico”. A escritora conclui que “se nos tornarmos todos artistas vamos ter uma predisposição de nos vermos todos uns aos outros e de esbater essa diferença entre leitor e autor”.

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