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Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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O que faz por nós um jornalismo de claque?

03 fev, 2016 • Opinião de Luís António Santos


Esta postura agachada faz de algum jornalismo uma atividade mais próxima da das claques nos recintos desportivos.

A discussão técnica de uma esboço de orçamento de Estado com a Comissão Europeia transformou-se, nos últimos dias, em Portugal, numa ‘enorme crise’ com contornos imprevisíveis e até já com custos reais pelo simples facto de estar em curso. Esta tem sido a narrativa favorita da maioria dos média nacionais - hoje há até um jornal que nos sugere graficamente a noção do ‘braço de ferro’ - mas valeria a pena perguntar se é a única possível e, sobretudo, se é a mais honesta e transparente no cumprimento do vínculo de serviço à comunidade que o Jornalismo estabelece com todos nós.

Tivemos os primeiros sinais dessa postura, desde logo, na forma como nos foi apresentado o esboço de orçamento que o governo entregou em Bruxelas - ‘um documento em bruto’, ‘ainda cheio de imprecisões’ - deixando de lado o pequeno detalhe de ser esse o procedimento habitual e normal (a CE não pode, nesta fase, pronunciar-se sobre o OE nem tem qualquer poder para obrigar um país membro a alterar um OE). Vimos isso, também, quando os média se prestaram a ser correia de transmissão dos ‘rumores’ (off the record) sobre a insatisfação da Comissão Europeia, quando deram grande eco à subsequente ‘inquietação’ das agências de rating e quando, finalmente, deram corpo à ‘fuga de informação’ que tornou público um documento comparativo crítico da Comissão.

Todos estes acontecimentos decorrem de uma estratégia negocial de fragilização de uma das partes - bem conhecida de todos os estudantes e profissionais do Jornalismo - e se não podemos questionar a sua legitimidade (nem mesmo a sua apropriação por parte de forças políticas que apresentam ideias contrárias às do governo em funções) podemos, em todo o caso, questionar o posicionamento absolutamente acrítico da generalidade dos média nacionais. Não sendo nova - todos nos lembramos do tom geral de apoio à mensagem ‘a culpa foi nossa porque andámos a gastar demais’ na sequência da crise de 2008 e do orçamento com o ‘brutal aumento de impostos’ de Vítor Gaspar - esta postura agachada faz de algum jornalismo uma atividade mais próxima da das claques nos recintos desportivos; ganha-se, talvez, na sensação de entusiasmo mas perde-se, e muito, na vital necessidade de enquadramento para uma situação complexa com a ajuda de vários e diferenciados olhares.

Comentários
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  • Ana
    04 fev, 2016 Oeiras 09:39
    Compreendo o que diz, mas passa por cima de uma questão básica : há ou não, razões para inquietação (que os sensatos sentem desde o primeiro momento) ? Fazer do consumo o principal motor da economia portuguesa, parece-me um bocado irrealista (num país onde tudo, desde as cebolas e batatas até à gasolina é importado).Aumentar os rendimentos, não dos mais pobres, mas da função pública, vai aumentar não apenas a sensação que têm os trabalhadores do privado de serem os enteados, mas também os gastos supérfluos (os de luxo) que aumentam as importações. Dizer que aumentar o preço dos combustíveis não afecta os mais pobres é ignorar que este aumento se vai repercutir no preço dos produtos finais (todo o transporte é feito por camiões...). O mesmo se pode dizer do crédito : acha mesmo que um imposto sobre os bancos não vai acabar por recair nas taxas e taxinhas que se cobram a quem pede crédito ou mesmo a quem se limita a ter conta ? Alguém fez estudos sobre as consequências destas medidas ? Lamento, mas não me parece que a inquietação da comunicação social seja mero clubismo. Há razões sérias para ter medo.
  • Jodi
    03 fev, 2016 Odivelas 19:58
    Obrigada por conseguir mostrar que o jornalismo não é "inocente" na nossa desgraça...
  • CS
    03 fev, 2016 LISBOA 17:01
    Colocou por escrito exactamente aquilo que tenho sentido nos últimos dias. Este tipo de jornalismo, que infelizmente é o que chega à grande maioria dos portugueses, é absolutamente inqualificável... ou se calhar qualifica-se mas como terrorismo ideológico.
  • João Laia
    03 fev, 2016 Beja 16:52
    Tem toda a razão. A maioria dos jornalistas económicos (veja-se os do "Económico") parecem clones. Mas, em vez de imitarem os mestres da economia, imitam-se uns aos outros, procurando cada um ir mais longe que o outro no seu clubismo. Ficam contentes com a desgraça de Portugal, desde que pensem que lhes dá razão Na verdade não são jornalistas. São maus comentadores e bons propagandistas.
  • Luís B.
    03 fev, 2016 Mirandela 16:45
    O texto tem interesse mas falta-lhe alguma contextualização. É que este jornalismo de claque é o mesmo que ao longo de 4 anos deu má imagem das medidas do governo anterior, através de opinião encapotada de inspiração oposicionista, através de destaques fotográficos de sopa dos pobres sem qualquer proporcionalidade com a realidade do país, através do enxameamento de opiniões de colunistas pagos para defender os interesses da sua claque, etc, etc.. ou acha que as sucessivas fugas de informação que tornavam públicos documentos que se analisavam nas Comissões parlamentares vinham de onde? Posto o problema de outra maneira, até porque o PS criticou o anterior governo por não ter deixado o Orçamento para 2016 elaborado (!?!?), não acha anormal que mais de 50 dias após terem tomado posse e o Presidente do PS ter vindo aqui à RR dizer que "tinham pleno conhecimento de todos os dossiers", o mais que conseguiram foi fazer uma folha excel mal amanhada? Quando são publicadas noticias dando conta que os problemas estão resolvidos ou em vias de resolução, de onde acha que saem as fugas?
  • JC
    03 fev, 2016 Lisboa 16:07
    Parabéns, Luis É com tristeza que vou lendo alguns comentários e análises de certos profissionais da comunicação social que dando azo à sua imaginação suja e mesquinha arrasam o país por simples revanchismo e má formação. É certo que a nossa classe política têm muitos mas muitos defeitos, que não sabe governar mas sim governar-se. O país não merece nem necessita ter profissionais destes. Não se vê isto em Espanha , Itália ou na Grécia, pelo contrário, em situações bem piores li sempre noticias contidas porque estava em causa a defesa do povo e do país . O país não merece ter esta gente, já basta os agiotas e os que ainda têm aspirações a serem colonizadores e que olham para nós como um povo subalterno e onde podem vir buscar recursos a troco chantagens e migalhas.