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Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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Como viverá sem TV o presidente que a TV nos deu?

28 jan, 2016 • Opinião de Luís António Santos


Tivemos na presidência um militar austero, um político nato, um diplomata e um homem que se bastou a si próprio. Chegou a vez de experimentar a "voz amiga"’ que nos embalou durante mais de uma década.

Aos olhos de alguns dos principais média internacionais, Portugal escolheu para presidente uma personalidade da televisão. "O mais popular opinador do país’" é a expressão usada logo na abertura de um texto do Financial Times, que significativamente só começa a falar da carreira política de Marcelo Rebelo de Sousa no segundo parágrafo. "Um muito famoso analista político de televisão, conhecido por Professor Marcelo" é a frase de abertura do The Guardian, num tom em tudo idêntico ao do FT.

Não é de agora o crescente cruzamento entre o universo das celebridades mediáticas e a política, mas é de agora a chegada de uma dessas personalidades ao mais alto cargo político no nosso país. Portugal aproxima-se, assim, a um fenómeno que já se terá percebido noutras democracias europeias (com predominância para as mais jovens, no Leste do continente) e também nos Estados Unidos (a eleição de Ronald Reagan aconteceu há 35 anos).

Poder-se-á argumentar, com alguma facilidade, que este cruzamento decorre da relevância que a televisão tem nas nossas vidas e que, nesse sentido, ela se aproxima e potencia até o debate público. Pode, em todo o caso, de igual forma, perceber-se na proximidade dos dois universos um sinal de empobrecimento progressivo desse mesmo debate, sobretudo porque são as regras da TV que ditam a forma, o ritmo e a densidade da mensagem e não o contrário.

Marcelo Rebelo de Sousa construiu, na televisão e por via da televisão, uma narrativa de proximidade simulada com os portugueses ,assente numa lógica tutorial - as perguntas previamente combinadas com jornalistas que, em canais diferentes, se submeteram a um papel de figurantes; a paternalista distribuição de conselhos; a "professoral" atribuição de notas; e até o toque de intimidade q.b. com as listas de livros recomendados - e geriu, com a eficácia de uma qualquer produtora de conteúdos, a existência e intensidade de um "formato" ganhador.

Se a convincente vitória nas eleições presidenciais é, por um lado, uma espécie de triunfo glorificado dessa construção, ela poderá ser, por outro lado, o seu fim. Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente, não vai poder falar-nos ao ouvido todas as semanas e não vai poder manter a postura de confortável afastamento das questões concretas da vida política que tão bem cultivou. Terá, forçosamente, que se reinventar num papel diferente, num outro formato. E imagina-se que, nesta altura, nem ele próprio ainda saiba muito bem qual será.
Até agora, tivemos na presidência um militar austero, um político nato, um diplomata e um homem que se bastou a si próprio. Chegou a vez de experimentar a "voz amiga"’ que nos embalou durante mais de uma década. É todo um mundo novo - com luz, som e persuasão profissionalizada - que se nos abre.

Comentários
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  • Saul
    09 fev, 2016 Lisboa 14:44
    Não acho q viva sem a TV e q se agache perante os comentários desfavoráveis q qualquer free-lancer ,elemento de partido ou partido lhe dirija.Será mto interventivo e replicador a antítese de Cavaco.N será comedido contra qem o ataca e é eleito indiretamente ,È o único eleito pro sufrágio directo e universal ,tem mais legitimidade q qualqer parlamentar ,pois estes fogem a sete pés dos referendos e ao voto nominal.
  • Almeida
    29 jan, 2016 Paris 08:33
    ... e filho de um ministro no tempo da ditadura. ... e afilhado do ultimo ditador.
  • Maria
    28 jan, 2016 PORTO 23:23
    Ele pode ser, ou ter sido, tudo isso que os "comentadores" antes de mim referiram, mas o grosso das pessoas que o elegeu, sem qualquer dúvida, fê-lo por ser o popular Professor Marcelo da TV, que dissertava de forma ligeira e afável sobre tudo e sobre nada, e não fazem a mínima ideia, ou pouco se recordam, de todo essoutro "repertório" que o homem sustenta. E por isso o texto de Luís António Santos se revelar de bastante e curiosa pertinência. Vamos mesmo aguardar para ver o que se passa...
  • Portugal Real
    28 jan, 2016 Lisboa 18:06
    Parece-me um erro de análise, mais compreensível na imprensa estrangeira do que na nacional, reduzir Marcelo Rebelo de Sousa a "uma personalidade da televisão", como se de um concorrente ao "Chuva de Estrelas" ou um participante na "Quinta das Celebridades" se tratasse. A notoriedade de MRS tem, como é inegável, várias outras e longínquas causas (jornalista truculento, reputado académico, famoso jurisconsulto, autarca intermitente, surpreendente dirigente partidário, antigo membro do governo, inesperado presidente de fundação, mecenas pouco convencional, etc.). Aliás, será possível (ou previsível) eleger um presidente da República sem nenhuma notoriedade? Por outro lado, achar que nem MRS sabe qual o papel em que se vai "reinventar" é uma grande ingenuidade... A reinventar-se anda o novo presidente há mais de 40 anos!
  • 28 jan, 2016 17:40
    O prof Marcelo é: Prof Catedratico, politico, ex-presidente de um partido, ex-ministro, concelheiro de estado, constitucionalista.