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Manuel Pinto
Opinião de Manuel Pinto
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“Porquê eles e não eu?"

18 jan, 2016 • Opinião de Manuel Pinto


Já não é a primeira vez que Francisco partilha o sentimento que tem quando visita detidos: “Porquê eles e não eu?”. Uma pergunta que poderia ser transposta para tantas outras situações dos nossos dias, do desemprego ao terrorismo.

No ato de lançamento do livro do Papa Francisco “O Nome de Deus é Misericórdia”, realizado na semana passada no Vaticano, não sei o que toca mais: se o testemunho de Zhang Agostino Jianqing, um jovem chinês condenado a 20 anos de pena, que se converteu ao cristianismo na prisão, ou o espectáculo de alegria e vivacidade do realizador e ator Roberto Benigni.

O recluso, batizado em 2015, depois de um processo de descoberta da alegria do Evangelho, sobretudo através de um compatriota igualmente detido, testemunhou como a misericórdia de Deus mudou a sua vida e agradeceu a “atenção particular” e permanente do Papa Francisco para com os presos.

O realizador de “A vida é bela” referiu-se ao Papa como “uma cascata de misericórdia”, que não pára de correr, que toma a misericórdia como o mapa pelo qual procura conduzir a Igreja para um lugar “esquecido: o cristianismo”.

A alegria de Benigni poderia parecer despropositada, num contexto em que o assunto era a misericórdia. Mas isso só pode ser motivo de estranhamento para quem, na misericórdia, olha apenas para os males, as desgraças e os pecados – na vida individual e na sociedade política. A perspetiva do livro de Francisco é toda outra: para ele, como salientou logo no Angelus inicial do pontificado, a misericórdia “muda tudo, muda o mundo”, porque o torna “menos frio e mais justo”. Para ele, “a Igreja não está no mundo para condenar, mas para permitir o encontro com aquele amor visceral que é a misericórdia de Deus”. E “para que isso aconteça (…) é necessário sair. Sair das igrejas e das paróquias, sair e ir procurar as pessoas onde elas vivem, sofrem, esperam”.

A alegria de Benigni provém justamente desta atitude de descentramento. De saída de si, dos espaços de conforto, de certeza e de estabilidade, para estar “onde se combate”, onde são necessários os primeiros socorros e o “hospital de campanha”. Isso passa por abrir as portas e mantê-las abertas, como observou o cardeal Parolin, no lançamento do livro do Papa. Abertas para sair, mas também para (os que querem) entrar.

Já não é a primeira vez que Francisco partilha o sentimento que tem quando visita detidos: “Porquê eles e não eu?”. Uma pergunta que poderia ser transposta para tantas outras situações dos nossos dias, do desemprego ao terrorismo. Sim, porquê eles e não eu? Porquê?

Comentários
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  • António Costa
    18 jan, 2016 Cacém 10:06
    Pois é, mas "...estar “onde se combate.." não chega...DUAS ou TRÊS decisões tomadas nos gabinetes e 20 ou 30 milhões de ser humanos são lançadas na guerra e na fome, como as pessoas da "linha da frente", a Igreja que sofre bem o sabem. Tem de ser mais uma voz incómoda nos locais ONDE SE DECIDE! Desmascarando quem decide e não só que já caiu em desgraça....Porque nos locais em que se decide está tudo muito "frio". Devem estar com medo do "aquecimento global".....