Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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Por que razão vai Marcelo à frente?

18 dez, 2015 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Dos principais candidatos a Belém, haverá algum que dependa menos de terceiros do que Marcelo Rebelo de Sousa?

Os últimos tempos da governação de Sócrates dividiram o país. A crise que se seguiu e os anos da troika trouxeram novas clivagens. E neste final de 2015 a sociedade portuguesa voltou a partir-se, com todos os acontecimentos que conduziram ao poder uma inesperada aliança governamental.

É num quadro politicamente dividido e socialmente débil que Portugal vai eleger o novo Presidente da República. Nos próximos cinco anos, quem quiser potenciar o futuro de Portugal a partir de Belém terá a responsabilidade de recuperar ânimos e de relançar pontes na sociedade portuguesa.

Entre os candidatos assumidos, Marcelo Rebelo de Sousa é apontado como grande favorito. As sondagens indicam mesmo que pode vencer, logo na primeira volta. Mas por que razão vai Marcelo à frente, com tão larga vantagem?

Os adversários dizem que a popularidade de Marcelo é “culpa” da televisão. E que a popularidade televisiva do comentador explica a saúde eleitoral do candidato.

É evidente que Marcelo Rebelo de Sousa é o mais resiliente dos comentadores políticos, com forte presença multimédia: televisão, mas também rádio e jornais. Mas muitos outros nomes, mediaticamente fortes, até no comentário político, não teriam a menor hipótese de vencer um combate eleitoral desta dimensão.

Então, porquê Marcelo? Entre outras razões, porque ser conhecido não basta. Mais do que conhecido, Marcelo Rebelo de Sousa é reconhecido e identificado pelo modo como olha para o país, para o mundo e para a vida. Convicções e juízos são apresentados com olhar crítico, mas esperançoso; e até com indesmentível sentido de humor.

De resto, as suas múltiplas opiniões não o impedem de dialogar com as mais diferentes áreas da sociedade. Há quem disfarce ou anule convicções para dialogar; Marcelo parte daquilo em que acredita para estabelecer diálogo e compromissos.

No fundo, o lema que António Guterres assumiu há uns anos atrás – razão e coração – constitui o melhor retrato do registo de Marcelo. As suas intervenções críticas manifestam sempre um misto de razão e coração. O lado racional nunca matou a sensibilidade nem o humor. As explicações de Marcelo sobre a actualidade levaram o comum dos mortais a aproximarem-se, simultaneamente, do significado dos acontecimentos, mas também da figura do “professor”. Não é tenso nem zangado, parece bem com o mundo e aprecia a vida; a origem social não é travão, mas facilita o contacto próximo com a generalidade das pessoas, em todas as circunstâncias. Não é apenas uma cara e um nome. É um bilhete de identidade cívica, com uma assinatura familiar para grande parte do país.

O modo não sisudo como sabe descodificar as mensagens mais sérias deu-lhe um enorme capital de confiança, potenciado por uma poderosa e diferenciadora imagem de marca – a independência.

Aos olhos de todos, parece impossível controlar Marcelo Rebelo de Sousa. Políticos que muito gostariam, mas não conseguem controlar Marcelo não confiam nele, receiam-no e sobretudo, temem-no. Queixam-se das irreverências, apontam-lhe defeitos, não lhe perdoam críticas ou acusam-no do que consideram ter sido verdadeiras traições.

Desconfio que se em Portugal o Presidente da República fosse eleito por via indirecta, pela Assembleia da República (como sucede noutros países europeus), os estados-maiores partidários tudo fariam para cozinhar no parlamento um candidato conveniente, à altura do “sistema”. Se o povo não elegesse directamente o Presidente da República, a escolha acabaria por recair em alguém dócil, previsível e controlável, coisa que faria as delícias, ao menos de uma parte da classe política.

Já para os eleitores, alguém que não se deixa aprisionar nem pelos círculos do seu próprio partido constitui a melhor garantia para o exercício da função presidencial. É também por isso que os eleitores confiam em Marcelo: sentem-no como um dos “seus”, que os “outros” não controlam.

Dos principais candidatos a Belém, haverá algum que dependa menos de terceiros do que Marcelo Rebelo de Sousa?

A independência ostensiva de Marcelo explica abundantemente a sua vantagem. E, por outro lado, no meio de tanta pressão económica e de tanta depressão social, quem pode surpreender-se pelo facto de os eleitores preferirem um candidato presidencial assumidamente livre que tem uma visão do país e sabe comunicá-la com esperança e empatia?

Comentários
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  • António Garrido
    20 dez, 2015 Vidigueira 17:15
    Em relação ao artigo em causa nada a ojectear, já quanto aos opinadores muito! Vê-se claramente que o artigo não foi encomendado nem as opiniões nele formuladas estão longe da realidade. Quanto a alguns comentários e que têm a ver com o passado, o pai do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, Dr. Baltazar Rebelo de Sousa presumo eu, quanto ao seu pai e à associação ao período fascista da nossa história, é isso precisamente história. Na história do advento do 25 de Abril e das amplas liberdades, conto aqui uma que faria corar, ou deveria fazer corar de vergonha alguns que na altura verberaram o fascismo, a censura e a liberdade de expressão. Conto um episódio surreal de quem advogava a liberdade de expressão. No dia após o 25 de Abril, 26 de Abril os alunos CDSA de Portalegre, então chamado o colégio dos fascistas, fizeram uma manifestação de apoio ao 25 de Abril e ao MFA, desceram a rampa do Colégio e foram ao quartel, altura em que a manifestação engrossou com os alunos da então Escola Industrial e Comercial, o comandante dirigiu-nos algumas palavras e daí fomos apanhar os alunos do Liceu Nacional de Portalegre no final com muitos populares à mistura tornou-se numa "mega" manifestação. Em abono da liberdade de expressão quando lemos num jornal o acontecido estavam referenciados os alunos do Liceu e os da Escola e os do Colégio não estavam. Viva a liberdade de expressão! É nisto que o Prof. Marcelo é independente. Um país politicamente dividido ao meio tem que sarar muitas feridas.
  • Manuel
    20 dez, 2015 Figueira da Foz 16:17
    Há muitos anos um comunicador por excelência protagonizou um episódio digno de uma série televisiva de grande impacto: oposição em forma de comentário critico à actuação de um futuro presidente da república na altura 1º ministro. A pretensa pressão daí decorrente catapultou-o para o topo da popularidade entre os seus compatriotas mais agredidos pela máquina da globalização internacional. Iniciou dessa forma e nesse momento a fundação que o sustentaria (à) até a Belém. São muitos anos de propaganda daquele que aparente ser o maior agente que o sistema alguma vez produziu. São inúmeros os exemplos da sua parcialidade e do seu empenhamento na concretização da missão que lhe compete. Quando recentemente afirmou que "o presidente da república deve ser alguém que acarinhe os portugueses mas nunca alguém com um plano de governação da Nação" deixou bem claro que o exercício do cargo que lhe foi oferecido há muitos anos será mais do mesmo. Afinal, foi através da sua intermediação que o dito 1º ministro que na altura "criticou" foi convidado em casa de Ricardo Salgado Espírito Santo (um dos donos disto tudo) para ser PR. MRS está para Portugal como um placebo está para uma patologia: carece de substancia activa. MRS parece ser um lobo com pele de cordeiro, um produto do sistema que dele se alimenta numa simbiose perfeita. Acarinhar um povo faminto não lhe sacia o estômago, fome é fome hoje como ontem. MRS é uma ilusão, um FX do sistema. Nada mudará senão para pior. Carinhosamente...
  • maria
    20 dez, 2015 porto 10:53
    o Sr. Marcelo ainda está onde está porque a memoria de muitos Portugueses é curta. é Filho de um ministro de Antonio Oliveira Salazar. O ditador que dizia que as Mulheres não precisavam de saber LER logo não iam a votos , só iam aqules que concordavam com a manipulação dos votas para a Assembleia Nacional. Valhanos-Deus.
  • José Pires
    19 dez, 2015 Algarve 22:38
    Mas... como tem a coragem de dizer que é que o Prof Marcelo é uma personalidade INDEPENDENTE?!! FOI PRESIDENTE DO PSD E JÁ ENTREGOU O CARTÃO? SERÁ QUE NÃO O VIU NA CAMPANHA DA FRENTE? Que comentários ele fez ao Governo de PASSAS COELHO? Sempre o desculpou e justificou as políticas deste? Tem duas coisas que o BENEFICIAM: _ os mais de 10 anos de ANTENA paga e as suas qualidades de COMUNICADOR? E o APOIO DA " FRENTE NACIONAL"??!! Mas ...o TEMPO falará por SI! A MANIPULAÇÃO tem riscos e, porque os DIAS CONTADOS?
  • Joao
    19 dez, 2015 Porto 19:19
    ... quem não gosta, não come -. pode ficar com azia ...
  • M. Martins Ponciano
    19 dez, 2015 T. Vedras 18:18
    De facto, pensei que a independência tivesse outro sentido na escrita. Admiro a bajulação que vem por aí. Não gosto de recuperar o passado, mas há passados e passados. Com esta bajulação esquece-se o "25 de Abril" e quem o forçou a que ele fosse possível. Os 48 anos de obscurantismo ainda não estão esquecidos e quem os foi alimentando? Que fraca memória! Quem era o Ministro de Exército ainda na década de sessenta e que obrigou a nossa juventude a martirizar-se no Ultramar e não deixar réstia alguma até que o seu sangue fosse todo derramado?
  • M.
    19 dez, 2015 Ajos 17:59
    Nada mais eficaz que a promoção esperta disfarçada de comentário mais ou menos independente.
  • João gil
    19 dez, 2015 Lisboa 16:10
    A esquerdalha não suporta gente intelectual e culturalmente superior. É por isso que nos brinda sempre com uns candidatos do tipo ex-canalizador ou ex-soldador, ou então uns sebosos vendidos e ou vira casacas ou pseudo-intelectuais e pseudo progressistas. Uma pessoa independente, livre e intelectualmente avançada como PR é uma chatice. A esquerdalha não gosta!
  • António
    19 dez, 2015 Lisboa 16:05
    Que ideia! 15 anos de auto-promoção, mais a ajuda dos amigos Júlio Magalhães, Judite Sousa (os das prendinhas e dos afectos, sendo que está tão grata que ainda agora lhe custa - e evita - chamar primeiro ministro a António Costa), e ainda do José Alberto de Carvalho (o que quase pedia desculpa por fazer alguma pergunta vagamente independente) afinal não contam nada, A direita o poder por direito divino, apoiada na sacristia, nunca é parcial, nem vingativa, nem corrupta. Amen!
  • Carlos Reis
    19 dez, 2015 Coimbra 13:47
    Sr. José Pinheiro, foi o Marcelo que lhe pediu para escrever esta artigo tão bajulador ?.