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Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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PS ou PASOK?

07 out, 2015 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Se não tiver a coragem de voltar a falar para os eleitores moderados, o PS corre o risco que matou os socialistas gregos do Pasok: o então pequeno Syriza roubou-lhes espaço e argumentos.

Quem aterrasse hoje em Lisboa e não soubesse o que por cá se passa há 41 anos, o que diria perante alguns pronunciamentos políticos, após as eleições de domingo? Desprevenido, pensaria que há uma maioria política de esquerda no parlamento. Não apenas aritmética, mas política e substantiva. Uma maioria feita de acordos, pontos de vista comuns, iniciativas unitárias, com uma visão do futuro agregadora, partilhada e mobilizadora, à qual, inexplicavelmente, o Presidente da República decidira não dar crédito.

Claro que este regressado à Pátria não deixaria de reconhecer, por mera honestidade intelectual, que os partidos do Governo tinham atingido um resultado notável, para quem governara quatro anos em condições limite. Mas, pensaria este nosso amigo, perante uma esquerda politicamente convergente nos temas essenciais, a coligação de governo perdera a maioria, não só aritmética mas política.

De resto, perante a iniciativa de que dá mostras, o nosso homem rapidamente concluiria que a liderança desta nascente maioria estava confiada a um partido (Bloco de Esquerda) com 10% dos que votaram e – fazendo as contas - com 5% dos que cá moram. Assim sendo, as posições desta liderança minoritária da maioria constituiriam, seguramente, um espelho do património comum dessa esquerda. Se assim não fosse, o maior partido dessa esquerda (Partido Socialista) ter-se-ia demarcado, afastando liminarmente qualquer veleidade de formar Governo com quem não partilha visão comum sobre o futuro.

Atónito, o nosso turista acidental, após umas rápidas pesquisas sobre o programa do Bloco que se estenderiam também à terceira força (!) da nova esquerda (Partido Comunista Português), cuidaria que esta maioria, sufragada pelas urnas, não deixaria de equacionar, no seu cardápio de medidas, temas como a saída imediata da Nato, a reestruturação da dívida, a eventual saída do euro ou até desta União Europeia, sem esquecer a necessidade de acabar com o Fundo Monetário Internacional ou a extinção da Organização Mundial de Comércio e do Banco Mundial.

Surpreendido pela consistência desta esquerda de três partidos, mas que fala a uma só voz (a da porta-voz), o nosso personagem olharia também para o secretário-geral do maior partido da esquerda, presumindo-o mais forte depois das eleições, com legitimidade refrescada para todos os desafios, designadamente o de governar – não apenas o seu partido, mas todo o país.

O que autoriza as conclusões deste protagonista de ficção é a manifesta desorientação do PS. Foi assim na campanha eleitoral, e assim continua depois das eleições.

O Bloco e Catarina Martins estão a fazer o seu trabalho – politicamente competente. Sentem a fragilidade do PS e tomam a iniciativa. E o PS que sempre governou ao centro e que é um partido referência do sistema político (não defende a reestruturação da dívida, nem a saída do euro, da Europa ou da Nato, como propõe a esquerda radical) deixa-se conduzir pelo tacticismo de terceiros, não aproveitando para clarificar aquilo que já deixou confundir durante a própria campanha eleitoral.

Por outro lado, é evidente que depois da derrota eleitoral do PS, António Costa não teria condições para assumir a liderança de um Governo, constituído sob o desígnio de muitas ideias que ao longo de décadas os socialistas combateram.

Claro que para viabilizar o Governo de maioria relativa da coligação que venceu as eleições, o PS precisa de contrapartidas. De resto, se o PS diz querer acabar com a austeridade (sem aventuras), a coligação promete que o país vai entrar numa fase de crescimento (sem loucuras). Nesta conjugação, haverá certamente oportunidade para compromissos que permitam governar e viabilizar orçamentos. Não é necessária uma coligação com a Coligação; basta responsabilidade e sentido de Estado.

No imediato, o futuro de António Costa joga-se nas presidenciais: perdendo, dificilmente poderá manter-se no lugar. Mas a médio prazo, o futuro do PS passa pelo seu reposicionamento no xadrez político. Se não tiver a coragem de voltar a falar para os eleitores moderados, deixando-se encantar e seduzir pela propaganda e pela iniciativa do Bloco, o PS corre o risco que matou os socialistas gregos do PASOK: o então pequeno Syriza roubou-lhes espaço e argumentos. E hoje em dia a alternativa ao Syriza não é o Pasok, mas os conservadores da Nova Democracia.

Comentários
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  • Pasok?
    09 nov, 2015 Lis 09:39
    Não confundam mais os portugueses ignorantes. O Pasok chegou ao estado em que está não foi por fazer compromissos e acordos à sua esquerda mas por ter governado à direita e com a direita em governos na Grecia. Precisamente o contrario do que está a fazer o PS! Não desinformem e sejam serios!
  • Vive-se democracia!
    12 out, 2015 st 20:32
    Estamos numa democracia madura! Tudo o que se enquadre nos parâmetros da constitucionalidade e que permita governos mais estáveis, é essencial! Será que para esta direita que coloca as coisas de outra forma e que afirma a sua democraticidade, podem pôr em causa soluções democráticas principalmente quando assegurem estabilidade, pela via parlamentar? Vejam os casos de países europeus onde há governos empossados em situações semelhantes e em que os partidos mais votados não são governo por não terem as possibilidades de obterem as maiores parlamentares de que necessitariam. Se o fossem é que era contra natura aos valores da democracia! Por outro lado que gostam tanto, quando lhes convém, dar exemplos do Pasok na Grécia que se está a "evaporar", devem agora ser honestos intelectualmente (coisa que lhes falta quando lhes convém), e concluírem que aquilo acontece porque o Pasok apoiou sistematicamente e fez parte de governos da direita, que, isso sim, conduziu ao aparecimento de forças mais radicais a obterem votações elevadas de forma a ganharem eleições! Portanto, António Costa, está a permitir que o PS se mantenha como partido de esquerda responsável, para que não aconteça, no futuro, o aconteceu ao Pasok! E os socialistas devem estar satisfeitos por terem alguém a liderá-los com carácter e com estratégia e não se deixarem influenciar por vozes de cantos de sereia! Efectivamente está em jogo a força do PS como partido, mas está no caminho certo!
  • Mas...
    08 out, 2015 St 09:23
    Não é precisamente o contrario do que expressa este artigo (articulista desconhecido)? O Pasok sofreu a "hecatombe", precisamente porque sempre governou aliado ao centro direita. Parece que o artigo, (articulista), pretende passar por cima dos valores democraticos e entrar em teorias da conspiração, no sentido de favorecimento do centro direita. Efectivamente, é este o pedido do presidente de alguns portugueses, mas há mais democracia para além deste PR!...em final de mandato! Afinal, quem está a pressionar o PS e de que maneira, não são apenas os partidos à esquerda do PS, mas a direita, (com os media mais empenhados), que ironicamente, necessita do PS para continuar a sua estrategia governamental, do custe o que custar. Quem diria que, afinal, na pratica, foi o PS, o vitorioso destas eleições!...Porque não, dentro dos valores democraticos e perante a tal aritmetica parlamentar favoravel, (e de que maneira), à esquerda, seguir a vontade popular expressa em eleições, se as intenções de seriedade, forem obtidas pelo PS, dos partidos à sua esquerda, nos contactos e negociações em curso? Para a direita, isto não é democratico?....Por muito que nos tentem manipular, os partidos da direita em conjunto, ganharam, (claramente?), as eleições, perdendo claramente, 700 mil votos e 26 deputados!... Num país democratico desenvolvido há que respeitar a vontade popular expressa e não subvertê-la. Isso é que seria defraudar os eleitores e estes não perdoarão!