Opinião de Graça Franco
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Ganhar por poucochinho

05 out, 2015 • Opinião de Graça Franco


A capacidade de diálogo e a humildade não se aconselha, exige-se. E exige-se, a todos.

Convenhamos que pode fazer sentido pensar que quem ganha por poucochinho pode fazer poucochinho. É a coligação que enfrenta agora essa dificuldade. E quem perde por muitinho ou muito pior do que isso, por muitíssimo, será que pode ainda fazer alguma coisa? É esse o desafio (talvez já não de Costa…), mas do PS, agora. A que se soma um outro: recuperar do desvio colossal de votos a favor do Bloco de Esquerda e reganhar um centro que tinha todas as condições para ter sido recuperado por Centeno e que a deriva que hoje podemos classificar como galambista/socrática desbaratou. Vá-se lá saber porquê.

As sondagens tinham afinal razão. Ao princípio da noite de ontem o ponto médio das projecções eleitorais das várias TVs apontava para: 39,3% para o PAF, 31,8% para o PS, 7,9% para a CDU e 9,6% para o Bloco, quando o ponto médio das sondagens da última semana de campanha era de apenas menos 0,3% para a coligação e mais duas décimas para os socialistas, mais um para a CDU e menos 1,6 para o Bloco. A realidade só fugiu às projecções à esquerda e, mesmo aí, na previsão dada ao Bloco.

Só na abstenção a previsão das sondagens acabou por falhar. O ponto médio das previsões na noite eleitoral apontava para 39,2, o que significava bastante menos do que os 42% de 2011 e levou à crença dos comentadores de que se reforçara a participação eleitoral. Não foi assim. Ao final da noite já era claro que em vez de descer subira para 43, resultado que, apesar de tudo, estava contemplado num dos extremos da previsão da Intercampus. Ficou assim salva a honra dos inquiridores.

No mais a PAF acabou a noite com 38,6, com desvio de menos de meio ponto face à média das projecções na última semana de campanha e o PS com 32,4 ou seja, com o mesmo desvio mas agora em sentido contrário, ficando assim a 6,2 pontos de distância da coligação.

O Bloco, pelo contrário, teve mais 2,2 do que lhe dava a média das sondagens e a CDU ficou a menos 8 décimas do que a média prevista (8,27). Depois, a distribuição de mandatos fez toda a diferença com o Bloco a galgar a fasquia do seu melhor resultado de sempre: 19 deputados contra os 16 de 2009 e a bonita quantia de mais 260 mil votos, ou seja, praticamente o dobro do conseguido em 2011. E é justo reconhecer que se uma Mortágua incomoda muita gente uma vintena incomoda muito mais. É caso para dizer: preparem-se.

O regresso do Bloco a terceira força faz mesmo parecer a vitória da CDU, com mais votos (2,4 mil) e mais um deputado, uma enorme derrota. Mas nada que se compare ao estrondoso falhanço do PS que, perante a perda de mais de 752 mil votos pela coligação, acabou a noite com mais 172 mil do que o pior resultado de sempre conseguido por Sócrates, em plena bancarrota (Costa depois de quatro anos de austeridade apresenta ao seu lado um ganho correspondente a menos de três estádios da luz em noite de enchente). É obra. Não chega a ser poucochinho, é simplesmente poucochíssimo!

Apesar da derrota, não se demitiu. Não é certo que o partido não lho exija, mas a seu favor note-se a moderação do discurso da derrota resistindo, com clareza, ao canto de sereia da esquerda à sua esquerda. Recusando “maiorias negativas” incapazes de se traduzirem em alternativas credíveis de Governo e anunciando que se “manterá fiel ao programa proposto” (cuja moderação é notória!), abrindo campo a uma negociação que a humildade anunciada por Passos Coelho talvez venha a facilitar.

É cedo para saber se a maioria relativa da coligação é para um, dois, três ou quatro anos, mas sem maioria absoluta o principal defeito da actual governação, a sua insensível sobranceria, não terá nem margem para crescer nem sobretudo margem para subsistir. Se Passos, como diz, aprendeu a lição das eleições da noite de ontem nasceu, certamente, um Governo melhor. Já não era sem tempo. Isto é claro senão se levar demasiado a sério a consigna inicial de que quem ganha por poucochinho pode fazer poucochinho: contas feitas, a coligação ganhou (foram só mais 319 mil votos do que o PS e menos 673,5 mil do que soma obtida só por PS/CDU e BE). A capacidade de diálogo e a humildade não se aconselha, exige-se. E exige-se, a todos.

Comentários
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  • Dora
    05 out, 2015 vila Nova de Gaia 17:57
    Faltou alusão a um dos grandes vencedores da noite: PAN, um pequeno partido mas de grandes causas.