Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
A+ / A-

​As duas caras do Syriza

21 set, 2015 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


O Syriza ganhou as eleições na Grécia. Aqui está uma boa notícia para os gregos e para os europeus.

Se o Syriza perdesse, com a facilidade com que tem rasgado sucessivos compromissos não deixaria de arregimentar e instrumentalizar as ruas contra a austeridade que o seu próprio Governo agravou e acordou com Bruxelas. E maior instabilidade política conduziria a um agravamento da situação e a mais sofrimentos para uma boa parte do povo grego.

De facto, a austeridade é hoje mais grave na Grécia do Syriza do que no tempo do governo anterior, da Nova Democracia. Vencida pelo Syriza, mas confirmando-se como a grande força da oposição, não se vê que a Nova Democracia incendeie os gregos contra a austeridade que também se viu obrigada a aplicar nos seus mandatos, perante um Estado que nas últimas décadas viveu sempre muito acima das suas possibilidades.

Recorde-se o que mudou em apenas nove meses. Em Janeiro, o Syriza ganhou as eleições gregas, prometendo mudar a Europa a partir de Atenas. Resultado? Aplauso quase unânime da esquerda europeia. Com a excepção, claro, de alguns partidos socialistas com responsabilidades governativas, caso de Hollande, em França.

Uma vez eleito e confrontado com a trágica realidade que de resto bem conhecia, Tsipras começou a falhar compromissos e convocou um referendo, para dizer à Europa que os gregos se opunham à continuação da austeridade. E os gregos disseram um rotundo ‘Não’. E Tsipras, embalado pela vitória, foi a Bruxelas levar o recado grego com uma mão e assinar com a outra novo pacote de medidas – mais gravosas e “austeras” do que as anteriores.

Debilitado no parlamento e em ruptura com o inefável Varoufakis, Tsipras recorreu de novo às urnas. E nas legislativas deste Domingo voltou a ganhar.

Os gregos renovaram o apoio ao único homem que tanto os leva a repudiar como a aceitar a austeridade. Por isso, é melhor que seja Tsipras, o adversário da austeridade, a aplicar a receita de que discorda, do que ter o mesmo Tsipras a protestar nas ruas, contra outro governo que aplicasse as medidas que ele próprio rubricou.

Mas para além da ambiguidade sobre a austeridade, sobra outra mais grave: no próximo governo grego, em coligação com Tsipras, continuará a sentar-se um partido conotado com a extrema-direita, cuja porta de acesso ao poder lhe foi escancarada pelo insólito esquerdismo do Syriza.

Ao menos, aqui não há novidade: os extremos tocam-se.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Antonio Cid Saldanha
    22 set, 2015 oeiras 01:37
    Caro Dr. Ramos Pinheiro,concordando quase em absoluto com a sua analise,permita dela extrapolar algumas das minhas reflexões:O Tsipras é tcticamente muito bom.Aparece primeiroa rusticidade marrialva do Varou e depois o estadista com a Super Cola 3.Em conexão o pragmatismo e como causa própria a falência das ideologias(nas quais se incluía a Europa Unida,que andou 30 anos para derrubar um simples muro e constroi 15 ou vinte em 3 meses) e mais ainda as éticas, valores,axilogias(refugiados,não digo mais) e os valores profundos da democracia crista e a propria historia crista da Europa!E melhor do que eu para apontar as causas,diz e repete o Papa Francisco:-o dinheiro é o deus para o mundo! Para voltar à Grecia e para terminar;arrumado que esta o assunto da Grecia,ainda vamos ter saudades do mesmo perante a crise secessionista em Espanha(ou Castela,pronto),a nova liderança labour na Inglaterra e claro a questão-major,a crise dos refugiados.Ajudaria claro que a Alemanha não fosse o segundo maior vendedor de equipamento ao Daesh!O primeiro é o do costume. Forte abraço
  • Oto
    21 set, 2015 Lisboa 20:50
    Não concordo como sr. Jornalista por 3 razões: Primeiro não foi o Syriza que levou a Grécia à situação de falência em que se encontra. Foram os dois partidos que a pilharam durante 40 anos e implantaram a corrupção em todo o País. Segundo, o Syriza nunca fez falsas promessas. O Syriza limitou-se a confirmar ao Povo grego o que o IFO e o FMI já tinham dito: ou seja que a dívida grega é impagável; que austeridade agravou a situação dos gregos e ainda aumentou a divida; e que a única solução é a reestruturaçaõ da divida. Terceiro, ao contrário do que se diz, Tsypras nunca concordou com este Plano. Limitou-se a aceitá-lo e aimplementá-lo porque lhe foi imposto, mas dizendo logo que não acreditava nele e endossando a responsabilidade pelo seu fracasso a Merkel e à UE. Recordo que a Grécia para entrar para a Comunidade Europeia falseou os seus dados económicos e voltou a falseá-los para entrar no euro. Os responsáveis por esta aldrabices são a Nova Democracia e o Pasok. Não se pode pedir ao povo grego que vote nos partidos que a levaram à falência. E sendo assim, em quem é que os Gregos deviam votar: no Aurora Dourada?
  • ssousa
    21 set, 2015 V N. Gaia 19:49
    opinião enviesada. um desperdício de tempo comentá-la.
  • Carla Sofia
    21 set, 2015 Portimão 19:48
    Evidencia um pensamento superficial e não perdoa que exista um homem a Governar a Grécia. Presume ainda que os gregos são burros quando tiveram ao votar, um raciocínio lógico embora um pouco complexo para a sua compreensão. Não fossem os gregos descendentes de Sócrates, Aristóteles e Platão.
  • jose martins
    21 set, 2015 j.martins.ferreira@sapo.pt 16:36
    subscrevo totalmente este atigo do dr ramos Pinheiro.Portugal precisa de analistas coerentes, sérios e frontais. continue com analises coerentes, que é disto que o pais precisa jm