Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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José Luís Ramos Pinheiro

Quando muitos eleitores derrotam alguns analistas e jornalistas

25 mai, 2015 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


As eleições inglesas e espanholas deixaram à vista um certo jornalismo de “wishful thinking”, em que os desejos de uns quantos procuraram sobrepor-se à realidade. Mas ela, a realidade, trocou-lhes as voltas.

Depois do que se passou no Reino Unido, também em Espanha as sondagens não conseguiram retratar com segurança as opções dos eleitores, nas eleições municipais e autonómicas.

Apesar da austeridade e dos casos de corrupção, o PP, perdendo muitos votos, mantém-se como força política mais votada, seguido de perto pelos socialistas.

O Podemos - estrela maior do debate político espanhol dos últimos meses - ainda que tendo concorrido sob várias denominações ficou aquém do sucesso, celebrado antes de tempo por sondagens e analistas.

Sabendo-se que são dois casos muito diferentes, quer no Reino Unido quer em Espanha não se pode concluir que a austeridade não fez estragos; nem se diga que os eleitores estão cegos perante as visíveis deficiências dos sistemas políticos e dos partidos de sempre.

Mas entre o branqueamento dos efeitos da austeridade e a condenação sumária de todo o sistema, com enterro antecipado dos partidos tradicionais, vai uma distância gigante. E, no entanto, nunca houve tanta análise, opinião, sondagens, estudos, comparações, teses e palcos de argumentação.

Sucede que os eleitores continuam a ser soberanos e no meio da trovoada opinativa, ainda conseguem fazer aquela que lhes parece ser a melhor escolha possível.

Mas o falhanço da parafernália mediática de previsões e comentários vai continuar, se não se aproveitar o momento para revisitar o jornalismo e a comunicação.

O advento das redes sociais potenciou a opinião individual e subjectiva, umas vezes assumida com inteireza, e outras tantas acobardada e camuflada por nomes e endereços fictícios.

Infelizmente, alguns media deixaram-se contagiar pela exuberância do subjectivismo, numa espécie de fuga para a frente, ditada pelo medo de perder a pedalada interactiva e o vento que sopra nas redes sociais.

Claro que a interactividade das redes sociais, em si mesmo, é boa. Mas interactividade não pode significar apenas reactividade, superficialidade e ligeireza de reflexão, sobretudo quando os assuntos não se reduzem ao mero - e também necessário - entretenimento.

Penso aliás que as redes sociais até agradecem que os meios de comunicação sejam verdadeiramente credíveis na informação que publicam, distinguindo-se pelo seu rigor e profissionalismo, não se deixando reduzir a uma espécie de catavento, à procura do seu papel e da sua missão.

Os defensores do jornalismo “light” defendem, a todo o custo, a subjectividade da actividade jornalística, pelo facto de a cada momento haver necessidade de escolher temas, abordagens, títulos, sons, imagens ou legendas que implicam uma visão e, por isso, uma opinião.

Pelo meu lado, prefiro posições editoriais claras, em vez de encapotadas, sob o disfarce da “imparcialidade”. Mas a clareza e a frontalidade editoriais não devem nunca impedir a disciplina objectiva da verificação e da confirmação dos factos a noticiar. Verificar e confirmar objectivamente os factos é condição essencial para chegar à verdade; e esse é um compromisso decisivo da actividade jornalística. Sem procurar a verdade de modo objectivo, os meios de comunicação abdicam da sua utilidade e tornam-se joguetes dos interesses do momento.

Quando a opinião editorial de um jornalista ou de um meio de comunicação impede que se procure de modo profissional a veracidade das situações, estamos perante uma distorção da realidade. Por aqui, se mede a real independência de um jornalista e de um meio de comunicação.

As eleições inglesas e espanholas deixaram à vista um certo jornalismo de “wishful thinking”, em que os desejos de uns quantos procuraram sobrepor-se à realidade. Mas ela, a realidade, trocou-lhes as voltas.

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