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Opinião de Graça Franco
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Graça Franco

A democracia sobreviverá, na Grécia não sei

24 jan, 2015 • Graça Franco • Opinião de Graça Franco


Pior mesmo, só a vitória do Syriza ser secundada pelo Podemos em Espanha e por Marine na França, e os UKip’s no Reino Unido e os Peguida na Alemanha etc, etc. Os extremos populistas, nacionalistas e congéneres, não se atraem, apenas auto-alimentam-se.

"Depois de Cleofon, a liderança popular foi ocupada sucessivamente pelos homens que falavam com mais alarde e que se vendiam mais aos gostos da maioria, atentos apenas aos interesses dos momentos".
Aristóteles

A minha crença na democracia sobreviveu a quase quarenta anos de reeleições de Alberto João Jardim por uma maioria de compatriotas madeirenses. Não vacilou perante o risco do senhor Le Pen vir a tornar-se presidente francês, nem esmoreceu a cada reeleição de Berlousconi em Itália. Sei que sobreviverá à expectável vitória do Syriza, na Grécia, com ou sem maioria absoluta. Mas reservo-me o direito de, a cada uma destas eleições, tentar com a maior preocupação compreender o racional que lhes está subjacente, procurando ativamente a vacina eficaz, para cada um destes fenómenos, sem nunca cair no erro de pensar que é coisa que só diz respeito a madeirenses, franceses, italianos ou gregos. Não é. O problema é nosso e se não fizermos parte da solução, é seguro que nos tornaremos parte do problema.

Percebo bem a revolta grega. Desde há cinco anos considero errada a receita aplicada à sua economia. Partilho, aliás, a quase totalidade do diagnóstico feito pela esquerda radical local no que se refere inclusivamente à parte da atribuição das culpas externas, no que se refere à cegueira dos credores e no que respeita à violência das medidas inutilmente impostas ao povo. Como o Syriza, também acho que é impossível forçar a Grécia ao pagamento da dívida actual, nos prazos e ao ritmo previstos nos programas de austeridade, pelo que a “ renegociação”, seja de que maneira for, me parece mais uma vez inevitável.

Apesar dos “perdões” que já lhe foram concedidos (incluindo aquele em que os privados foram já chamados a participar) parece-me de bom senso que outros se seguirão. Mas, considero um erro enorme que se veja na radicalização da política grega a porta aberta para a flexibilização comum da política de Bruxelas. Porque resta saber se dos dois lados se jogará com a flexibilidade desejável ou com uma espécie de arrogância com os riscos de ricochete. Porque, se assim for, perderemos todos a começar nos próprios gregos.

O país está mais do que nunca à beira do precipício e a questão que se coloca é a de saber se na segunda-feira se inicia o caminho de gradual recuo, que todos desejaríamos, ou se dá, pelo contrário, o passo em frente que tornará inevitável a queda livre. O desespero é mau conselheiro. A pobreza também e nada pior do que uma liderança acossada sob a batuta do “perdidos por cem”. E, com todo o respeito pela decisão grega, não me parece que o “perdidos por mil” não possa efetivamente vir a ser para Atenas, e por arrasto para toda a zona euro, bastante pior.

Como economista acho que nos cabe a todos pensar diferente, procurando estudar novas saídas “alternativas”. Mas a noção de “novas” é importante. O misto ideológico na base do Syriza em si mesmo, uma coligação variada entre maoístas/trotskistas/ eurocomunistas e afins, não me parece que traga muito de novo. Vinte cinco anos depois da queda do muro, parece mais o ressuscitar das velhas máximas marxistas, agora envolvidas em novas promessas de amanhãs que cantam.

As reportagens dos enviados especiais são claras a traçar um retrato de um país imerso num caos económico e num total amadorismo de experimentalismo político/social.

A boa gestão de fundos comunitários da sua autarca modelo, da região de Ática, parece estar a animar as hostes, credibilizando soluções imaginativas que é muito cedo para saber se correspondem efetivamente a uma capacidade de governação diferente. Mais uma vez todas as promessas eleitorais exigem meios e, se de repente, deixar de existir resgate, e deixarem de fluir os fundos? O que acontecerá a um Estado sem euro nem acesso aos mercados?

Como a deputada do BE Mariana Mortágua tem feito o favor de avisar, não é garantido que a moderação do Syriza vá além do mero taticismo pré-eleitoral. O risco de saída do euro pode ser real. O dracma reimaginado tem um real poder de atração e fascínio. E só no dia seguinte a uma decisão de efetiva rotura ficaria claro para o povo grego que, afinal, pior do que a austeridade da troika, pode ser a queda livre sem ela. E aí, vale a pena lembrar que hoje já ninguém na Europa se constipa a cada espirro grego (a dívida está em mãos institucionais mas já saiu dos bancos alemães e franceses).

Podem os Gregos ficar abandonados a si próprios, se assim o pretenderem? Vale a pena ler devagarinho os textos do professor Adriano Moreira para nos convencermos que a guerra em território europeu pode ser uma ameaça credível. Num país onde 50 por cento da juventude não tem emprego nem esperança de futuro não convém subestimar o risco. Nos anos 70, a Grécia, a Espanha e Portugal ainda viviam em ditadura. A democracia é um bem precioso e demasiado recente.

É verdade que nesta crise a culpa da miséria grega não pode exclusivamente imputada aos “credores”. Há, sem dúvida, também uma quota-parte de corrupção, incompetência e complacência própria. Mas o mix das duas foi de facto explosivo.

Em 2010, a economia grega parecia aqueles doentes que entram na urgência com um tal número de doenças graves que não há como evitar-lhes a morte sem antes os, prudentemente, “estabilizar”. Foi exatamente o que não se fez. O fanatismo ideológico da chamada troika ficcionou uma economia inexistente em que os mecanismos de mercado haveriam de funcionar de forma imediata e perfeita (quais Estados Unidos) e potenciar, a cada medida adotada, uma espécie de destruição criativa e regeneradora de todo o tecido produtivo que se encontrava na altura entre o decrépito e o informal.

Os credores empurrados por Berlim convenceram-se que os gregos haveriam, por toque de mágica e a toque de caixa, mudar radicalmente de vida. Desendividar-se, desaculturar-se da corrupção que minava os seus negócios e a sua administração (sobreendividada e sobredimensionada). O PIB caiu a pique, os salários caíram ainda mais, o incipiente e ultra-generoso estado social colapsou.

Nada se passou como diziam as sebentas. O desemprego que a troika garantia que não deveria nunca ultrapassar os 14 por cento galgou para os 35, anos passados está ainda muito acima de 20 e passa os 50 por cento entre a juventude. As privatizações venderam a desbarato o que ainda restava de um tecido produtivo, já de si desestruturado e não competitivo. A pobreza ultrapassou todos os limites do intolerável e foram-se abrindo os caminhos para o desespero dos mais pobres, a que se somou uma classe média agonizante. Sem trabalho, sem estado social, sem subsídios, sem saúde, sem emprego e sem futuro à vista para os próximos quinze anos.

Os governos que se foram sucedendo têm para mostrar como enorme conquista um défice finalmente nos eixos, acompanhado de uma dívida que, afinal, é bastante maior do que a inicial.

Pelo caminho, o velho Pasok quase desapareceu do mapa (5,5% nas últimas sondagens).

A Grécia está hoje à beira do precipício mas os restantes lideres europeus parecem agora olhar de forma vaga e distanciada o risco de ela vir a dar o grande passo em frente.

Não por acaso, nas páginas do NYT, a senhora Le Pen regozijava-se com a simples hipótese de vitória do Syriza (porque “irá fortalecer os euro-céticos”). Ela lá saberá quais são as hipóteses de subida da extrema-direita irmã perante um possível novo falhanço da governação interna grega. Sobretudo se esta for acompanhada de um rotundo fracasso das negociações com os credores, seguida de nova e previsível instabilidade governativa do país. Não é impossível que lá para Julho, com o abrir de novo ciclo eleitoral, a chamada Aurora Dourada, que hoje leva já sete por cento nas sondagens, venha a passar para segundo ou terceiro partido nacional.

Suprema ironia. Os gregos que viveram a ocupação nazi da segunda grande guerra, abrirem agora as portas do respetivo parlamento aos neo-nazis. E se isto não é simplesmente perigosíssimo, gostava que me explicassem o que pode ser mais perigoso na Europa atual. Pior mesmo, só a vitória do Syriza ser secundada pelo Podemos em Espanha e por Marine na França, e os UKip’s no Reino Unido e os Peguida na Alemanha etc, etc. Os extremos populistas, nacionalistas e congéneres, não se atraem, apenas auto-alimentam-se.

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