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Licor de osso de tigre para financiar a proteção da espécie? Sim, na China

08 jan, 2019 • Reuters


A proteção da vida animal selvagem tem melhorado na China, mas a maneira como muitas medidas são financiadas está a criar controvérsia. E não passa ao lado da medicina tradicional.

No Parque do Tigre da Sibéria, na cidade de Harbin, uma garrafa de licor de osso de tigre custa entre 40 e mil dólares. A bebida é legal e reconhecida pelo Departamento de Silvicultura e o Ministério do Comércio chineses.

O licor é uma maneira de financiar a manutenção do parque, mas não pode ser promovido publicamente, tendo em conta a “sensibilidade da situação”. Pode ser adquirido à entrada do parque, onde é exibido em grandes armários de vidro, e também através da internet.

Segundo as entidades gestoras dos parques de criação de tigres, sem a venda de ossos, peles e carne de tigre, os proprietários não conseguiriam cobrir os custos elevados de manutenção dos espaços e implementar os planos de conservação estipulados pelo governo.

Os defensores da natureza consideram contudo que, apesar dos avanços significativos feitos no país em prol da proteção da vida selvagem animal, existem interesses económicos que podem minar esse caminho.

“A indústria ocupa uma posição importante nas regiões menos desenvolvidas do país, onde a redução da pobreza se mantém como a grande prioridade das autoridades”, afirma um especialista em política chinesa na Humane Society International.

No Parque do Tigre da Sibéria existem mais de 1.300 tigres espalhados por três diferentes localizações. A venda de licor de osso é uma maneira de subsidiar as despesas diárias do parque, confirma um dos guias, citado pela agência Reuters.

Mas a principal fonte de receita são os ingressos, que custam 15 dólares. Sendo que os visitantes podem ainda comprar frangos para alimentar os tigres: um frango vivo custa de 20 dólares e um bife custa apenas dois.

Segundo o gestor do Parque de Tigres da Floresta do Nordeste, junto à fronteira com a Rússia, a despesa de alimentação com cada tigre é de 435 dólares (379 euros) por mês.

Liu Dan, que cria tigres há mais de 30 anos, tem defendido o levantamento da proibição sobre o comércio de partes do tigre e afirma que os incentivos fiscais não são suficientes para garantir a viabilidade financeira dos parques. No entanto, atualmente, é o dinheiro das entradas que financia estes espaços.

Medicina vs proteção?

Em outubro, depois da pressão de alguns criadores de tigres, o Conselho de Estado da China anunciou que irá substituir a proibição de 1993 ao comércio de ossos de tigre e chifre de rinoceronte, abrindo exceções para "circunstâncias especiais", incluindo pesquisas médicas.

Contudo, em novembro, a medida foi adiada após protestos generalizados de grupos conservacionistas, que temem que qualquer abertura ao comércio legal de partes de tigre seja uma sentença de morte para a espécie.

Os estudiosos da diversidade biológica defendem que não existe necessidade científica ou médica que justifique o uso de chifres de rinoceronte e ossos de tigre na medicina tradicional chinesa.

O osso do tigre, por exemplo, é frequentemente usado para tratar artrite e dores articulares, mas existem dezenas de outras ervas com propriedades similares, afirma Eric Karchmer, diretor de medicina do Dao Labs.

O debate sobre o levantamento da proibição do comércio de ossos de tigres ocorre numa altura em que a China procura desenvolver a sua indústria de medicamentos tradicionais, avaliada em cerca 50 mil milhões de dólares por ano, e posicioná-la como um pilar fundamental da sua estratégia de desenvolvimento de infraestrutura e investimentos em países da Europa, Ásia e África.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) prepara-se, aliás, para reconhecer oficialmente, em 2020, a medicina tradicional chinesa como parte do seu compêndio médico global, segundo avança o “Nature International Journal of Science”.

A China fez avanços significativos na proteção da vida selvagem nos últimos anos, incluindo a proibição total do comércio do marfim e planeia abrir uma das maiores reservas mundiais de tigres selvagens no nordeste em 2020.

A organização não-governamental World Wildlife Fund (WWF) diz que a China tem entre 40 e 50 tigres selvagens na China, num total de 3.900 em todo o mundo. Grupos de conservação estimam que existem mais de 6.500 tigres de criação em cerca de 200 instalações chinesas.

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