Opinião de José Miguel Sardica
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Dois “plátanos” e sete tomates

05 set, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


Mais de 32 milhões de seres humanos que (sobre)vivem no que é hoje o Estado e a sociedade, falhados e caóticos, de uma Venezuela reduzida à ditadura de um homem.

Vi a reportagem na televisão há alguns dias. Numa qualquer rua de Caracas, à porta de um supermercado ou mercearia, onde muitos já não podem comprar nada ou nada há para vender, uma mulher mostrava o que conseguira adquirir: nada mais do que dois “plátanos” (bananas) e sete tomates. E acrescentava que aquela esquálida provisão era tudo o que o venezuelano médio pode comprar durante um mês, com o seu salário de menos de dois euros! A reportagem acompanhava-a depois – rosto encovado, provavelmente com fome, sem dúvida desesperada – a casa, filmando-a a olhar uma favela num morro. Não sabemos se a parca fruta e legumes mostrados a iam alimentar somente a ela ou se os dividiria com outros – a família, numerosa ou não, algum amigo ou vizinho.

Aqueles segundos televisivos eram a ponta de um icebergue, e aquela mulher sem nome apenas um dos mais de 32 milhões de seres humanos que (sobre)vivem no que é hoje o Estado e a sociedade, falhados e caóticos, de uma Venezuela reduzida à ditadura de um homem.

A ruína do “chavismo” e a agonia do “madurismo” estão à vista de todos. De caudilhos heroicos muito estimados e louvados pelas esquerdas europeias (portuguesa incluída), Hugo Chávez e, hoje, Nicolas Maduro tornaram-se um enorme embaraço para os antigos amigos e uma gigantesca evidência do que é o “socialismo real”. Uma visão cínica das coisas não diria que eles condenaram a Venezuela ao mais abjeto fracasso; argumentaria antes que eles tiveram êxito no grande desígnio que sempre apaixonou o radicalismo de esquerda, a saber, criar, por achatamento horizontal na base, a absoluta “igualdade”. De facto, não há hoje muitos países tão igualitários como a Venezuela; o problema é que a igualdade venezuelana é a comunhão dos descamisados, a igualdade na miséria, na fome, na desesperança e na fuga. Quase dois milhões e meio de pessoas abandonaram o país desde 2014, provocando um fluxo migratório de refugiados, já comparável ao que cruza o Mediterrâneo a caminho da Europa, que invade os países vizinhos (a Colômbia, o Equador, o Peru e até o Brasil, de Michel Temer), fazendo-os quase parecerem paraísos a comparar com a vida em Caracas ou noutras cidades sujeitas à outrora gloriosa “revolução bolivariana”.

O drama da Venezuela não pode agradar a ninguém: não é humano desejar, na arena política, “quanto pior melhor”, para provar que Maduro é um louco e as suas engenharias sociais e financeiras um abismo. Maduro irá cair, porque a “sua” Venezuela já não existe como país viável. Uma economia onde é preciso um largo saco de notas, no valor de 14,6 milhões de bolívares (!), para comprar um frango no valor de 1,9 euros é um absurdo. Faltam alimentos, medicamentos, cuidados hospitalares, transportes – tudo. E em cima disto, Maduro veio agora propor que os venezuelanos “aforrem”, comprando pequenos lingotes de ouro a preço acessível!

Constatar o que se vê e ouve sobre a Venezuela não tem que ver com ser de direita ou de esquerda. O problema é simplesmente – melhor dizendo, dramática e urgentemente – humanitário. Indigna qualquer alma como é que aquele país da América latina, outrora próspero, foi tomado por um punhado de cleptocratas que estriba a sua existência – na verdade, o seu delírio – na ruína dos seus concidadãos, com a ironia trágica de a Venezuela ser um território rico em petróleo, ouro, diamantes ou gás natural. Os recursos naturais venezuelanos são superiores aos de Portugal ou aos de outros países europeus. Mas isso de nada vale, nem nunca valeu, noutros tempos ou lugares, perante um lunático que estrebucha numa péssima política.

Comentários
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  • claudia
    11 set, 2018 lisboa 17:36
    A Venezuela é um problema que vai ser resolvido quando os estados fronteiriços e america central o decidirem e vao precisar da intervenção do ocidente se para isso estiverem dispostos ou deixarem andar para a tornar o exemplo de como colapsam os regimes socialistas.A hora de intervir ou não vai ter em linha de conta nao causar maior massacre do q deixar o regime implodir por dentro.Há elites e militares e serão estas forças a solução?O isolamento progressivo e economia planificada levaram Pais á exaustão.China e Russia terão capacidades para regenerar e recuperar Venezuela?
  • Nem na China
    10 set, 2018 Em qualquer Lado 01:12
    Sobre o fim da Revolução Cultural já passaram 50 anos. Enfim, existem pessoas que não mudam. Soluções que não funcionaram nos idos 60s, parece que continuam com os mesmos resultados. O nosso amigo "Maduro" devia era tornar-se "Verde" e mudar de "embalagem". O "Verde" é que está a dar tanto em termos religiosos como políticos! O comentador MASQUEGRACINHA focou, também um ponto importante. Demasiado importante. Ditaduras de um homem só?
  • MASQUEGRACINHA
    05 set, 2018 TERRADOMEIO 18:51
    Bem descrito: custa, de facto, assistir à estúpida agonia da Venezuela e do seu povo. Só uma nota: não há, nem nunca houve, ditaduras de um homem só, como até qualquer taxista opinoso já compreendeu. E deixo uma perplexidade: a evidência da fé a par do evidente "delírio" (que em Chavez chegava ao folclórico de exibir e encomendar-se publicamente a uma pequena estatueta da Senhora de Fátima que, ao que me pareceu, devia transportar sempre com ele, uma vez que a tirou de uma algibeira). Mais uma bizarria do "socialismo real", talvez...? Mas nada que não tenha acontecido noutros regimes, igualmente delirantes, embora menos socialistas. Deve ser coincidência.