Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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O Brexit está encalhado

30 ago, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O governo de Londres e os conservadores não se entendem sobre o Brexit e a UE não aceita a proposta de T. May. Aumenta a probabilidade de o Reino Unido sair da UE sem qualquer acordo.

O Reino Unido sairá da UE no dia 29 de março do próximo ano. Esta é uma das raras certezas que existem neste processo. Mais de dois anos depois do referendo, não se sabe se o Reino Unido sairá com um acordo ou sem acordo algum com a UE. O ministro das Finanças britânico, Philip Hammond, disse que, caso a saída se concretize sem acordo, as consequências serão desastrosas para a economia britânica. Logo veio a primeira-ministra Theresa May pôr água na fervura, afirmando que “não será o fim do mundo”.

Talvez não acabe o mundo, mas a incerteza que se mantém desde junho de 2016 é muito negativa não só para a economia do Reino Unido, mas também para quem tem comércio com esse país. A incerteza acentuou-se com a possibilidade de vir a acontecer um novo referendo, que anule a decisão do anterior.

Muitos britânicos, incluindo alguns que votaram a favor da saída da UE, foram-se dando conta de que essa saída não apenas não irá trazer os benefícios mirabolantes que, irresponsavelmente, vários líderes anti UE anunciaram durante a campanha do referendo (por exemplo, o dinheiro que o país pouparia deixando de contribuir para o orçamento comunitário iria salvar o serviço nacional de saúde, hoje degradado), como a saída, mesmo com acordo, vai levantar problemas complicados.

Agora, um radical eurocético como Jacob Rees-Mogg até admite que as vantagens para o seu país de abandonar a UE só serão sentidas daqui a… meio século. É assim provável que um novo referendo desse um resultado oposto ao obtido em junho de 2016. Mas é politicamente muito difícil que tal aconteça. E, caso aconteça, ficaria sempre uma ruidosa minoria a clamar que o povo tinha sido traído pelos políticos.

O negociador chefe da UE, Michel Barnier, já tornou claro que não é aceitável a última proposta de T. May – a qual, de resto, também foi mal recebida pelos conservadores mais radicais no seu ódio à integração europeia. De facto, não é aceitável que os britânicos possam beneficiar do comércio livre na exportação de mercadorias, mas fiquem fora do mercado único europeu e da união aduaneira, protegendo os serviços financeiros da City de Londres.

Informa o Financial Times, a partir de Tóquio, que os grandes investidores japoneses na Grã-Bretanha (gestores de empresas como a Toyota, a Nissan, a Honda, etc., que empregam muitos britânicos) estão desesperados com as incertezas deste processo. Queixam-se de que escreveram um memorando de 15 páginas dirigido ao governo de Londres logo em setembro de 2016 – mas não tiveram resposta aos seus pedidos de esclarecimento. Nem poderiam ter, pois ninguém sabia qual é, ao certo, a posição britânica. Nem ainda hoje é claro qual será a posição final – irá a Câmara dos Comuns ter a última palavra? O que explica uma outra queixa dos empresários japoneses: a de que, quando falam com governantes britânicos, eles dizem coisas diferentes uns dos outros…

Na área política, o Brexit poderá ser fatal para o partido conservador, cuja divisão quanto à Europa comunitária o anterior primeiro-ministro, David Cameron, quis acabar de vez… realizando um referendo que afinal perdeu, levando-o a afastar-se da liderança do governo e do partido. Depois, a sua sucessora T. May quis reforçar a exígua maioria dos conservadores na Câmara dos Comuns convocando eleições antecipadas e acabou por ficar sem maioria conservadora. Ou seja, têm-se sucedido os erros dos políticos britânicos. Erros que talvez ainda não tenham acabado.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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