Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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O falhado reformismo saudita

21 ago, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O alegado reformismo do príncipe herdeiro revelou os seus limites. A tradição político-religiosa saudita está de volta.

Quando, há perto de um ano, as mulheres sauditas foram autorizadas a conduzir automóvel, levantou-se a esperança de que fosse reformado e modernizado o regime ultra controlado da Arábia Saudita.

Era, também, uma aposta no jovem príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que é quem de facto manda naquele país desde junho de 2017. Bin Salman afirmava querer um Islão moderado e tolerante e pretender diminuir a dependência saudita do petróleo.

Mas o príncipe herdeiro logo mostrou ser um ditador implacável. Mandou prender dezenas de religiosos e intelectuais. Deteve onze príncipes num hotel de luxo, além de altas personalidades políticas e militares; e só os libertou após lhes ter extorquido uma parte considerável das suas fortunas. A pena de morte continua a ser aplicada na Arábia Saudita; no ano corrente contam-se já 73 execuções.

Será, então, bin Salman um déspota iluminado, um pouco à semelhança do que foi em Portugal o Marquês de Pombal? Começam a levantar-se dúvidas.

Mohammed bin Salman esteve na origem da tentativa de isolar o Qatar dos outros países muçulmanos sunitas, sem grande sucesso, e impulsionou a guerra no Iémen, onde os militares sauditas se têm mostrado pouco eficazes, apesar da violência a que recorrem. E bin Salman empolou um ridículo conflito diplomático com o Canadá. O ministério canadiano dos Negócios Estrangeiros apelou ao respeito pelos direitos humanos na Arábia Saudita. Tanto bastou para ser expulso de Ryad o embaixador canadiano e para forçar a saída do Canadá dos sauditas que ali estivessem – nomeadamente estudantes e doentes em tratamento, os grandes prejudicados.

Entretanto, a economia saudita baixou 0,7% e o desemprego está perto dos 13%. Nada se avançou na diversificação daquela economia, demasiado ligado ao “crude”. A venda em bolsa de uma parte do capital da companhia petrolífera estatal Aramco, que supostamente iria atrair investidores estrangeiros, foi adiada “sine diae”.

O alegado reformismo do príncipe herdeiro revelou os seus limites. A tradição político-religiosa saudita está de volta.

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  • António Costa
    21 ago, 2018 Cacém 12:23
    Nos EUA, quando se perde, vai-se para a oposição. No Médio Oriente quando se perde, perde-se a cabeça. Assim os "grandes amigos e aliados" do Ocidente estão "dispensados" de qualquer respeito por quaisquer normas Democráticas. Esses "atributos democráticos" são apenas uma obrigação para os aliados do Irão, inimigo de Israel e da Arábia Saudita.