Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

O escândalo da Pensilvânia

20 ago, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Mais de 300 padres abusaram de menores ao longo de 70 anos na Pensilvânia. Não menos chocante, esses crimes foram encobertos pela Igreja Católica ao longo de décadas.

“Já houve outros relatórios sobre abusos sexuais dentro da Igreja Católica. Mas nunca nesta escala.” Estas palavras constam de um relatório elaborado por um grupo de jurados (o chamado “grande júri”), por solicitação da procuradoria-geral da Pensilvânia, nos EUA.

Os jurados investigaram durante dois anos seis das oito dioceses do estado da Pensilvânia, concluindo que mais de 300 padres abusaram de menores ao longo de 70 anos. Não menos chocante, esses crimes foram encobertos pela Igreja Católica ao longo de décadas; em alguns casos o silêncio das vítimas foi comprado.

O relatório saúda a boa colaboração prestada por um bispo local à investigação e reconhece que a atitude da Igreja mudou muito nos últimos 15 anos; agora, os crimes de pedofilia alvo de suspeitas de haverem sido cometidos por eclesiásticos são muito mais rapidamente reportados pela Igreja à polícia, escreve o “grande júri”.

Este caso, de dimensões preocupantes, bem como a retirada da condição de cardeal a um antigo arcebispo de Washington, McCarrick, hoje com 88 anos (não se via uma decisão igual desde há quase cem anos), abalam a credibilidade da Igreja e a própria fé. O presidente da conferência episcopal dos EUA classificou de “catástrofe moral” o que estas notícias vieram revelar.

Veja-se o caso da Irlanda, onde o número de católicos, que era esmagador há décadas, baixou muito desde então, para o que contribuiu a revelação de numerosos casos de pedofilia cometidos por padres e encobertos pelos seus superiores, bem como de sistemáticas violações de direitos humanos de que foram vítimas centenas de raparigas em instituições dirigidas por freiras católicas.

O Papa Francisco visita a Irlanda nos próximos dias 25 e 26. O Arcebispo primaz da Irlanda, Eamon Martin, declarou que espera do Papa não apenas um pedido de desculpas, do tipo “lamento muito”, e que o Papa deveria encontrar-se em Dublin com vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero.

Para já, a reação do Vaticano ao relatório da Pensilvânia foi inequívoca: a Igreja sente vergonha e dor ao tomar conhecimento dos casos de pederastia praticados por sacerdotes, que considera criminosos. E fez saber que o Papa está do lado das vítimas.

Mas não me surpreenderia que o escândalo da Pensilvânia sirva de arma para atacar o Papa Francisco por aqueles que, dentro da própria Igreja, o combatem. E que entre esses críticos de Francisco por ainda não ter acabado com a pedofilia eclesiástica se encontrem alguns que, no passado, apoiaram o encobrimento dos crimes, para não prejudicar a imagem da Igreja.

O Papa enganou-se quanto a um prelado do Chile, que defendeu por deficiente informação. Mas depressa reconheceu o erro e agiu decididamente em relação ao problema chileno, como é sabido. Que o Papa Francisco continue a procurar que este cancro seja eliminado da Igreja, por muito que as revelações dos crimes e do seu encobrimento suscitem escândalo. Só a verdade liberta.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Susana
    22 ago, 2018 Faro 11:19
    Já são muitos anos de abusos sexuais, são abusos demais, nem que fosse só um abuso a Igreja já teve mais que tempo para acabar com essa imposição anti-humana de celibato nos padres e toda essa hierarquia da igreja católica. Basta! São humanos, ninguém vive só de palavras, precisam de carinho e amor, não só esse amor que tanto falam nas igrejas, precisam de amor físico sim e não inventem desculpas. Deus nos fez assim, senão os ditos "escolhidos" teriam nascido sem órgãos sexuais! Alguém de coragem que termine com essa palhaçada de castidade e celibato. Dêm a liberdade a cada um de escolher as suas próprias vidas PRIVADAS, não é por terem uma companheira que vão deixar de ser seguidores de Jesus Cristo. Em página nenhuma da Bíblia diz que os religiosos não devem casar. Porquê a igreja obriga a isso? Entretanto, fecham os olhos a esta realidade, cada vez maior à escala mundial, de violarem os filhos dos outros. Tirem as máscaras uma vez por todas. Querem ser diferentes das outras religiões, proibindo os homens de serem pessoas normais e estão a contribuir para este terror no mundo com milhares de violações. Que as nações Unidas ou quem de direito acabem com isto de vez ou proíbam a igreja de ter portas abertas. Vão para a selva viver, porque no meio da sociedade já se viu que não devem estar. Deus gostará que estes pedófilos, violadores, predadores sexuais estejam nas igrejas a falar da palavra de Cristo? O Vaticano que ponha fim ao celibato ou feche portas para sempre!
  • Sasuke Costa
    20 ago, 2018 Porto 11:06
    É o que temos, muitos mais foram mordidos nas fileiras que nunca se saberão pois a denúncia de tais casos faz com que as vítimas sejam castigadas duplamente. Não deixa de ser descritiva, para entender este mundo, a forma como viajam estas notícias e de como são travadas outras como as aparições marianas (como exemplo em 2000-2001 que envolve milhares de pessoas em Assiute, Egito, Igreja Ortodoxa Copta). O Santo padre não sabe nem nunca saberá quantos, da sua fileira, foram mordidos e tem de pensar em assegurar os alicerces da Igreja, limpando e arrumando quanto às bocas do mundo essas não fazem do pecador um homem justo, quem não quer ver ambiciona cegar quem vê.