Opinião de Luís Cabral
A+ / A-

José Pedro Martins Barata

03 ago, 2018 • Opinião de Luís Cabral


Infelizmente, o "sistema" - nomeadamente o sistema académico - favorece grandemente o especialista. Os "renascentistas" não só têm uma tarefa difícil (a extensão do saber) como se deparam perante uma sociedade que não os aprecia suficientemente.

Hoje, escrevo sobre o Arq. José Pedro Martins Barata, começando com uma declaração de interesse: trata-se de um tio, irmão da minha mãe.

Apesar desta circunstância, espero ser objectivo no que se segue.

Na segunda-feira passada, José Pedro Martins Barata (JPMB) foi condecorado pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa como Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública.

Quem é JPMB? Trata-se de um português arquitecto; ilustrador; desenhador de selos, notas e moedas; especialista em planeamento, nomeadamente planeamento urbano; vereador da CM de Lisboa; investigador social; e, mais recentemente, professor catedrático convidado do IST.

Quem conheça JPMB reconhecerá que esta é uma lista muito, muito parcial. Resta-me a desculpa da falta de espaço e falta de conhecimento sistemático de um currículo tão variado quanto longo.

Quando pensamos em generalistas, pensamos no Renascimento, a época em que a extensão da arte e do saber ainda permitia o aparecimento de pessoas como Leonardo ou Galileu. Não vou aqui debruçar-me sobre a questão interessante (e muito batida) de quem foi o "último generalista". Aceitemos, simplesmente, que o mundo actual não é um mundo de generalistas: Assim como a Revolução Industrial trouxe a divisão do trabalho para um patamar superior (ou inferior, consoante a perspectiva), a universidade de investigação (primeiro na Alemanha, depois nos Estados Unidos, depois um pouco por todo o mundo) trouxe a divisão do trabalho para o mundo do saber.

Hoje em dia, o saber é em grande parte produzido e distribuído em departamentos especializados por académicos que "sabem cada vez mais sobre cada vez menos". A especialização tem coisas óptimas, mas também tem os seus custos: muitas vezes, é preferível ver a realidade a 3 dimensões, mesmo que com "lentes" pouco nítidas, do que ver a realidade com uma precisão enorme, mas a 2 dimensões.

Infelizmente, o "sistema" - nomeadamente o sistema académico - favorece grandemente o especialista. Os "renascentistas" não só têm uma tarefa difícil (a extensão do saber) como se deparam perante uma sociedade que não os aprecia suficientemente.

Também por este motivo, é particularmente feliz a escolha do Presidente da República ao condecorar JPMB, possivelmente o último generalista.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • JOAQUIM S.F. SANTOS
    12 ago, 2018 TOJAL 22:12
    "Para muitos a sabedoria não é mais que um talismã de morte",. Retirado do livro "Sabedoria Revelada do Deus Vivo"
  • João Lopes
    03 ago, 2018 Viseu 20:22
    Artigo interessante e bem escrito!
  • MASQUEGRACINHA
    03 ago, 2018 TERRADOMEIO 19:39
    Pois. E o "ensino para a empregabilidade", designadamente a academia a reboque das "forças vivas da economia e da empresa", como tão defendido pelos pragmáticos do costume, veio pregar a tampa do caixão do homem renascentista. RIP. Aliás, o próprio saber pelo saber passou, em definitivo, a coisa que ocupa o lugar de capacidades mais úteis, como saber escamar um peixe, talhar umas bifanas, repor rapidamente iogurtes na prateleira - como diria o nosso sábio Santos numa das suas alocuções. Claro que, felizmente, existirá sempre uma minoria eclética e iluminista, nossa flor na ignorante lapela, a receber prémios de que todos nos orgulhamos e a produzir obra preclara sob os auspícios de ínclitas fundações...