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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral

Pausa na guerra comercial EUA-UE

27 jul, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A trégua no conflito entre os EUA e a UE pode evitar uma guerra comercial, prejudicial para ambos os blocos. Mas não há trégua com a China. E Trump muda frequentemente de posição.

O encontro de Juncker com Trump na Casa Branca correu melhor do que se esperava. Trump gosta destas reviravoltas… Também antes tinha insultado Kim Jong-un, ameaçando-o com terríveis ataques militares, e depois o encontro de ambos em Singapura correu muito bem, segundo Trump. Mas tal como ninguém sabe se a Coreia do Norte vai de facto prescindir do seu armamento nuclear, também é impossível garantir que a guerra comercial com a UE não acontecerá. Recorde-se que, a certa altura, Trump disse ter alcançado um acordo com a China para evitar a guerra comercial – e dias depois o conflito com a China agudizou-se perigosamente.

Poucas horas antes de receber Juncker, Trump escreveu um “tweeet” pouco simpático. “Os outros países que nos têm tratado de forma injusta no comércio agora vêm todos a Washington para negociar” – afirmou o presidente, insinuando que tal significava que a sua estratégia comercial de confrontação começava a dar frutos. Por outro lado, Trump foi obrigado a atribuir 12 mil milhões de dólares de ajuda de emergência a agricultores dos EUA prejudicados pelas medidas de retaliação decididas pela China, na soja nomeadamente.

Têm-se multiplicado as vozes de republicanos contrários à guerra comercial, até por motivos políticos: alguns receiam que a escalada da guerra comercial seja desastrosa para a sua base eleitoral em novembro (eleições intercalares para o Congresso). E começam a ser em número significativo os industriais americanos, incluindo exportadores, a queixar-se de que a guerra comercial lhes estraga o negócio. Não são só os fabricantes das motos Harley Davidson…

Para já, pelo menos, há uma trégua com a UE. Os direitos aduaneiros sobre aço e alumínio mantém-se, mas Washington poderá levantá-los caso as negociações com a UE corram bem; o mesmo acontecerá com as retaliações europeias. E durante as negociações para baixar direitos no comércio transatlântico e eliminar outros entraves Trump prometeu não recorrer a ameaças, como direitos de 25% sobre automóveis europeus importados pelos EUA. Mas será que as importações europeias, provenientes dos EUA, de gás natural liquefeito e de soja irão aumentar tanto como Trump espera? Só o tempo o dirá. Entretanto, o presidente americano voltou a criticar as importações de gás russo pela Alemanha.

Do lado da UE, a Comissão Europeia necessitará da concordância dos Estados membros para finalizar acordos com Washington. O ministro dos Negócios Estrangeiros da RFA apressou-se a lembrar que os mais fieis apoiantes de Trump gostam de guerras comerciais. E um antigo embaixador americano na UE, citado pela BBC, afirmou ter pouco sentido a Europa importar gás dos EUA, por barco, que fica mais caro do que o transportado em gasodutos; e lembrou que no falhado acordo transatlântico de comércio e investimento já se previa a eliminação de 97% dos direitos aduaneiros da UE e a eliminação total na importação de bens industriais (exceto nos automóveis).

Juncker e Trump acordaram, também, trabalhar em cooperação no sentido de reformar a Organização Mundial do Comércio (OMC). É sabido como Trump detesta as organizações multilaterais, por isso há o risco de tal reforma tirar a pouca eficácia que a OMC ainda tem hoje, pois os EUA de Trump tudo têm feito nesse sentido.

Em suma, são muitas as incertezas deste cessar-fogo que alivia (temporariamente?) a UE e deixa preocupada a China. Com os chineses não houve trégua.

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