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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral

A UE diversifica mercados

21 jul, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A curto prazo, o mercado dos EUA não será substituído por outros mercados para as exportações europeias. Mas um maior acesso a esses mercados poderá limitar os danos se Trump continuar a encarar a UE como um inimigo.

Na próxima semana o presidente da Comissão Europeia, C. Juncker, vai a Washington negociar direitos alfandegários, no quadro da guerra comercial desencadeada por Trump. Este já declarou ser a UE “inimiga” dos EUA; e ameaçou fechar a fronteira a automóveis europeus com direitos alfandegários de 25%. Juncker não terá uma semana fácil. Entretanto, a Comissão Europeia vai procurando mercados alternativos, multiplicando acordos comerciais com outros países.

Depois da II guerra mundial, e conscientes de que o protecionismo praticado anteriormente havia sido extremamente prejudicial para todos as economias envolvidas, os políticos mundiais, fora da área comunista, apostaram em liberalizar as trocas comerciais. O que foi em grande parte conseguido, não através de acordos bilaterais, mas de negociações multilaterais. A primeira ronda negocial começou em 1947, no quadro do GATT; mais tarde, o GATT (uma organização provisória) foi substituído pela Organização Mundial do Comércio. A primeira e última ronda negocial da OMC, o chamado “Uruguai Round”, envolveu 123 países e baixou os direitos aduaneiros em cerca de 40%, eliminou direitos de importação em países desenvolvidos, nomeadamente no sector têxtil, reduziu os subsídios à produção agrícola e incluiu os direitos de propriedade intelectual; seguiu-se em 2001 o “Doha Round”, que ficou pelo caminho – nunca se conseguiu um acordo final.

O menor empenho nas negociações comerciais multilaterais levou a dar algum impulso a negociações regionais. É o caso da NAFTA, zona de comércio livre envolvendo os EUA e os seus vizinhos, Canadá e México. Trump quer acabar com a NAFTA, pois só lhe interessam negociações bilaterais, onde o maior poder económico dos EUA faz a diferença. Entretanto, o presidente americano tinha já abortado uma parceria comercial com os países do Pacífico (que não incluía a China), bem como foram suspensas as negociações já iniciadas para uma parceria atlântica, UE-EUA, que Trump não quer.

Acordo comercial com o Japão

O mercado americano é o mais importante para as exportações Europa comunitária. Por isso não há ilusões sobre a possibilidade de, a curto prazo, Bruxelas conseguir substituí-lo por outros mercados. Mas ter maior acesso a esses outros mercados poderá limitar os prejuízos.

Na passada terça-feira foi assinado um importante acordo comercial entre a EU e o Japão. As negociações com o Japão tinham começado em 2012, mas as ameaças protecionistas de Trump deram-lhe novo e definitivo impulso. É o maior acordo comercial bilateral alguma vez realizado, cobrindo um quarto da economia mundial e 600 milhões de pessoas. O Japão irá reduzir gradualmente os direitos sobre a importação de automóveis europeus e eliminará esses direitos na importação de produtos alimentares, como vinho e queijo, da Europa.

A Comissão Europeia calcula que as trocas comerciais entre a Europa comunitária e o Japão aumentarão entre 16 e 24% a partir de 2019, quando o tratado comercial entrar em vigor, poupando mil milhões de euros aos exportadores europeus em direitos aduaneiros. Aliás, além do acordo de parceria económica foi celebrado um acordo de reconhecimento mútuo dos respetivos sistemas de proteção de dados, o que facilita e torna segura a circulação de informação eletrónica entre as duas partes.

Antes, a UE tinha concluído um acordo comercial com o Canadá, que já entrou em vigor, e avançou nas negociações de um acordo com o México. Presentemente, decorrem negociações com a Austrália, Nova Zelândia, Índia, Vietname, Indonésia, Singapura, Tunísia, etc. E foram relançadas as negociações comerciais de Bruxelas com o Mercosul (Brasil Argentina, Paraguai e Uruguai).

O problema da China

No mesmo dia em que foi assinado o acordo da UE com o Japão realizava-se, em Pequim, uma cimeira China-UE. Recorde-se que, em janeiro do ano passado, o presidente chinês Xi Jinping apelou em Davos – ponto de encontro do grande capitalismo mundial – a que os países recusassem o protecionismo, com o qual já então Trump ameaçava. A China é, assim, um aliado objetivo da UE no combate a guerras comerciais e a isolacionismos económicos.

Por outro lado, a China está ao lado da UE contra a posição americana no Acordo de Paris sobre alterações climáticas, que os EUA abandonaram, bem como contra a posição americana quanto ao acordo internacional com o Irão sobre o nuclear.

A guerra comercial já começou entre os EUA e a China e arrisca-se a escalar para níveis perigosos. Mas a UE também se tem queixado da China, por exemplo acusando-a de fazer “dumping” na venda de painéis solares em território europeu. E Bruxelas, tal como os EUA, lamenta certas práticas chinesas, como a exigência de Pequim de que investimentos estrangeiros tenham parceiros chineses ou a transferência ilegal de tecnologia ocidental para a China.

A aposta europeia está em tentar convencer os dirigentes chineses a eliminarem práticas comerciais danosas, mas – ao contrário de Washington - sem ameaças de guerra comercial da parte da UE. É de notar que na semana passada a chanceler Angela Merkel recebeu em Berlim o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. Na ocasião várias empresas alemãs e chinesas assinaram acordos de cooperação. Destacou-se a decisão da empresa química BASF. Que vai investir 10 mil milhões de dólares na criação de uma fábrica no Sul da China, com capital totalmente alemão.

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