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Opinião de Henrique Raposo
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Se és contra a pena de morte, como é que és a favor do aborto? (e vice-versa)

13 jul, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Como é que um indivíduo é contra a morte de um criminoso e – em simultâneo – é a favor do descarte do ser humano mais frágil e inocente de todos, um ser humano a quem nem sequer é concedido o direito de nascer?

“Se quiser perceber ao que me refiro quando falo em arbitrariedade das categorias, veja o caso da polarização política. Da próxima vez que um marciano visitar a Terra tente explicar-lhe por que razão aqueles que concordam que se autorize a remoção de um feto do ventre da mãe também se opõem à pena de morte”. A citação é do livro “Cisne Negro” de Nassim Taleb e remete para uma das grandes incoerências do ar do tempo: como é que se pode ser pró-aborto e anti-pena de morte ao mesmo tempo? Como é que a vida pode ser absoluta e relativa ao mesmo tempo?


Seja qual for a natureza do crime, o leviatã não tem o direito de matar um cidadão capturado pelas forças policiais. Se há rendição ou captura, a força letal deixa de ser legítima. E o leviatã não pode recorrer à pena de morte por três razões. Em primeiro lugar, o estado de direito é a negação da vingança. Desde as cidades refúgio do Antigo Testamento (Nm 35, 9-34), o estado de direito tem sido o congelador do impulso natural da vingança de sangue. Esse impulso não pode ser erradicado, mas pode ser congelado ou adormecido. A pena de morte é o inverso desta domesticação dos nossos piores impulsos, é a legitimação do olho por olho, dente por dente do estado da natureza. Em segundo lugar, o estado pode errar na sentença; aquela pessoa pode estar de facto inocente. Em terceiro lugar, a pena de morte abole à partida a possibilidade de redenção. A redenção de um criminoso é, com certeza, um caminho difícil, mas não é impossível. São Paulo e Santo Agostinho eram criminosos ou impuros.

Pois bem. Se, com base nestas três razões, uma pessoa é contra a pena de morte de um indivíduo que matou ou violou mulheres, como é que depois essa mesmíssima pessoa fecha os olhos à morte por antecipação de um ser humano que nem sequer tem voz? Como é que um indivíduo é contra a morte de um criminoso e – em simultâneo – é a favor do descarte do ser humano mais frágil e inocente de todos, um ser humano a quem nem sequer é concedido o direito de nascer? Como é que se dá este salto lógico? Porque é que o valor da vida deixa de contar no aborto? Repare-se que os defensores da pena de morte ainda podem argumentar (sem razão, diga-se) que a morte é o único castigo à altura do crime hediondo praticado pelo réu. Mas qual é a acção hedionda do bebé por nascer? É esta a brutal incoerência dos defensores do aborto. É tal arbitrariedade de que fala Taleb. Não há aqui uma coerência lógica ou moral dos argumentos, há apenas a vontade política de um sector da sociedade que decreta uma “moralidade” à la carte.

Este raciocínio também se aplica ao contrário. As pessoas que por norma são contra o aborto são paradoxalmente as pessoas que mais apoiam a pena de morte – e aqui estamos numa realidade que é sobretudo dos EUA e da chamada cintura bíblica sulista. Como é que uma pessoa que se diz cristã pode ser contra o aborto de manhã e ser a favor da pena de morte à tarde? Não há nada mais anti-cristão do que aceitar como legítima a morte de uma pessoa às mãos da coerção legal do leviatã ou moloch. Da mesma forma, não se pode ser ao mesmo tempo pró-vida e pró-armas. Um cristão não pode ser pró-vida e pró-armas da mesma forma que não pode ser nacionalista e cristão. Esta posição, bastante comum nos EUA, é uma contradição lógica e uma violação da moral ancorada no evangelho. As pessoas até têm o direito de defender a cultura das armas, mas já não têm o direito de fazer essa defesa enquanto cristãs.

Comentários
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  • germano
    15 jul, 2018 lisboa 10:57
    As religiões tem grandes princípios mas tb grandes irracionalidades tal qual a politica.A fronteira entre o bem e o mal depende das religiões e dos políticos por vezes com conceitos antagónicos.A cultura criada por ambos leva a atuações derivadas dos comportamentos sociais ou aspirações politicas.Quando o choque é violento surgem as guerras,penas de morte etc.Ainda não foi ultrapassado o passado dos extremismos e confrontos fatais/letais e não há consensos universais sobre a vida e a morte em todas as vertentes.
  • Emanuel
    14 jul, 2018 Sintra 21:11
    Se és a contra a discriminação das mulheres, como é que és católico? (e vice-versa)
  • Emanuel Teixeira
    14 jul, 2018 Sintra 15:26
    Se és contra a discriminação das mulheres, como é que és católico? (e vice-versa) . Sendo a igreja católica uma instituição profundamente machista e discriminatória das mulheres: não podem ser Papa, não podem ter lugar no cargo mais elevado da hierarquia da igreja, são consideradas como a origem do mal,e e outras baboseiras católicas. Não é preciso ser marciano para ficar baralhado. O Henrique Raposo decida-se: é a favor da igualdade das mulheres, ou é católico? Porque não se pode ser católico e simultaneamente a favor da igualdade entre os sexos, isso é uma incoerência tremenda!
  • João Lopes
    14 jul, 2018 Viseu 13:30
    Henrique Raposo tem razão: «Como é que um indivíduo é contra a morte de um criminoso e – em simultâneo – é a favor do descarte do ser humano mais frágil e inocente de todos, um ser humano a quem nem sequer é concedido o direito de nascer? …qual é a acção hedionda do bebé por nascer? É esta a brutal incoerência dos defensores do aborto».
  • Carolina
    13 jul, 2018 Lisboa 16:41
    talvez porque há outra razão para alguém ser contra a pena de morte... Em alguns casos ( como já aconteceram em casos de prisão perpétua), alguns anos mais tarde com a evolução da tecnologia ou através de recursos e mudança de testemunhos se comprova que o arguido estava inocente. Se já é um acto deplorável deixar um inocente 20 anos numa prisão imaginem matar essa pessoa e mais tarde " ups agimos mal". Se não somos infalíveis a analisar as provas e em julgamenos não podemos ter penas definitivas ( não se pode remediar a morte de alguém). O aborto é decidido pela pessoa que o quer fazer não havendo neste caso um erro e pensem o que pensarem para quem não é religioso ( vamos lá parar de fingir que não está isso em questão), não considera até às 10 semanas e 3 dias ( lei portuguesa) que o que esteja no seu interior seja um "ser" e considere o que considerar tem o direito de abortar.
  • Vera
    13 jul, 2018 Palmela 14:43
    Olá Henrique Raposo, conhece aquele termo de 'varrer para debaixo do tapete'? pois é isso mesmo, varrer o lixo que fez e esconder para que não se veja! isso é mais ou menos, um sinónimo de aborto! em comparação, com aquele que assassinou alguém premeditadamente, não se sabe bem porquê, mas deve ser castigado! vai preso porque a lei manda! E se a lei for a favor da pena de morte, até pode morrer acusado injustamente! aqui, é varrer o lixo que se juntou debaixo do tapete, mas se o tapete não for bem sacudido, não vale a pena! porque se 'a pena' não for justa, fica tudo sujo na mesma. Um cristão não católico, é um cristão não católico! não segue as mesmas leis, que um cristão católico: ' Não matarás', não matarás qualquer ser vivo, de forma alguma! só se for em defesa própria ou de alguém que esteja a ser atacado, é um dever defender... 'ajudar o próximo'. Também se pode caçar para comer, mas os pássaros, não acho boa ideia.