O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
Opinião de José Miguel Sardica
A+ / A-

"Estar por horas": a não-notícia

11 jul, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


Ao lado da informação verdadeira e das “fake news” abundam assim, também, as não-notícias, exploradas à saciedade como “teasers” constantes e diários.

Quando foi inventada – no tempo em que só havia jornais – a comunicação social servia para informar o leitor acerca dos principais factos novos de interesse público. Na era presente da híper-informação, o conceito de notícia é tão amplo e maleável, ao sabor de agendas e lobistas, voyeurismo e infotainment (a mistura da informação com entretenimento), que as redes sociais, as televisões e o online não têm barreiras à “novelização” da informação, ou seja, a lançar um isco e a pisá-lo e repisá-lo, vezes sem conta, servindo requentado um “prato”, leia-se, um tema, que de repente faz manchete, mas que, na verdade, tarda a ser uma notícia, entendida como algo novo e, por isso mesmo, relevante.

Ao lado da informação verdadeira (um conceito hoje bastante relativo), e das “fake news” abundam assim, também, as não-notícias, exploradas à saciedade como “teasers” constantes e diários, quase como um romance-folhetim que avança muito devagarinho (ou não avança), mantendo o suspense e, por esta via, a atenção pública, as audiências, os “clicks” … e os anunciantes.

Para “novelizar” a informação usa-se e abusa-se, hoje, do “pode estar por horas”: as horas passam, nada de realmente novo se passa, mas, entretanto, o show está montado, está criado o suspense, os comentadores constatam que “ainda nada está definido”, e as imagens ou as reportagens, montadas em looping, repetem-se e repetem-se e repetem-se, garantindo que o que quer que seja “está por horas”.

Na última semana, tivemos dois exemplos disto: o drama do resgate dos rapazes presos numa gruta na Tailândia e a epopeia da transferência de Cristiano Ronaldo do Real Madrid para a Juventus. Atenção que de modo algum pretendo igualar as duas histórias. Na Tailândia, lutou-se por vidas; em Turim, aguarda-se um galáctico da bola. Não é o conteúdo, com toda a distância que vai do drama tailandês às venturas de CR7, que aqui quero discutir, mas a forma. Durante dias, as televisões assentaram arraiais nas duas histórias. Na Tailândia, de relevante aconteceu terem encontrado os rapazes e terem, uma semana depois, conseguido o seu resgate. Mas entre uma e outra coisa, viu-se uma sobrecarga de “não-notícias”: a salvação, a chuva ou a incerteza estavam “por horas”. E, no entretanto, houve horas e horas de “especiais” e de opiniões, de espetáculo mediático montado sobre a iminência da tragédia ou da glória. O excesso foi tal que saturou e banalizou o acontecido, ao ponto de o espetador achar que estava a assistir a um documentário de espeleologia! Com Ronaldo é o mesmo. A transferência, a assinatura do contrato, a apresentação em Turim estavam (estão?) “por horas”; um repórter encarregado de “encher chouriço” (perdoe-se a gíria jornalística), entrevista anónimos em Turim, operários da FIAT ou passantes na loja da Juventus e filma, vazia, a sala de imprensa onde talvez o craque dê a sua primeira entrevista em Itália. O suspense é sebastiânico, quando no fundo se trata apenas de um jogador a mudar de entidade patronal! De Ronaldo nada, “but the show must go on”.

Nos EUA, até aos anos 1960/70, os noticiários duravam cerca de 15 minutos; só chegaram à meia-hora por causa do Vietname e do Watergate. Em Portugal, também houve um tempo em que eles eram sóbrios, curtos e realmente noticiosos. O «Domingo Desportivo», que versava sobre futebol, durava meia-hora e limitava-se (é um elogio), a mostrar os resumos dos jogos. Hoje, tudo vale para a espetacularização da notícia. E se a história não avança, não há problema; repete-se o que se tem, mistura-se e dá-se mais uma vez, na esperança de que alguma coisa nova possa, de facto, acontecer “nas próximas horas”. O que interessa é que o share suba e os espetadores não desertem…

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • António Costa
    12 jul, 2018 Cacém 09:42
    O ser Humano faz parte do Mundo. Não é exterior ao mesmo. As "noticias" são "desenhadas" para as pessoas que as "consomem". São desenhadas, cozinhadas. Sempre foi assim. Os faraós há milhares de anos já o faziam. Foram as noticias e as "verdades" que mudaram? Falsas verdades? O que mudou foi o "acesso ao poder"! A maneira de chegar a chefe, a maneira de ser "nomeado" chefe/presidente é que mudou! As pessoas escolhem de "forma livre" (é um eufemismo) os seus dirigentes com base na informação disponível. Escolhem as chefias com base no que sabem delas. As pessoas tem aquilo que merecem. Só são enganadas porque pensar, procurar e analisar dá muito trabalho. É muito mais fácil repetir slogans.
  • MASQUEGRACINHA
    11 jul, 2018 TERRADOMEIO 17:19
    Excelente descrição! Tornou-se, de facto, uma tremenda maçada assistir a um simples telejornal. E às mixórdias de prioridade do alinhamento noticioso, às vezes chega a parecer-me que deve ser algum algoritmo cegueta e insensível a decidir aquilo... Eu faço sempre assim: começo a ver só meia hora depois de ter começado; e (abençoado comando!) vou passando por cima das partes bate-na-mesma-tecla e das mixórdias. Reduz-se o telejornal a cerca de 20 minutos, incluindo essenciais e fait-divers interessantes. Temos que nos ir adaptando, antes que nos "adaptem" a nós.