Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Fantasias sobre o interior

06 jul, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O discurso oficial sobre o combate à desertificação do interior é fantasista, demagógico e enganador.

“Preparem-se para o funeral do interior do país” – esta frase encontra-se numa nota emitida pelo Bispo de Vila Real, D. Amândio Tomás, reagindo ao encerramento do colégio dos salesianos em Poiares, Peso da Régua. O colégio, como vários outros no interior, fechou por ter cessado o contrato de associação com o Ministério da Educação. Ou seja, por falta de apoio financeiro do Estado.

Este é mais um exemplo revelador de como é fantasista, demagógico e enganador o discurso oficial sobre o combate à desertificação do interior do país. Os trágicos incêndios florestais do ano passado chamaram a atenção da opinião pública para essa desoladora desertificação. Daí o discurso dos governantes. Só que, desgraçadamente, os anúncios de medidas para revitalizar o interior são meras fantasias. E sucedem-se os golpes que aceleram a desertificação.

Que empresa se deslocará para um interior onde não dispõe de mão-de-obra nem de serviços de que necessita para funcionar, apenas porque lhe baixam uns pontos de percentagem no IRC? Nenhuma, claro. O mesmo se diga da desejável transferência para o interior de famílias, que ali não iriam encontrar escolas para os filhos – outra fantasia.

O desequilíbrio entre o litoral e o interior atingiu uma tal dimensão em Portugal que só um vasto programa de choque, dirigido à promoção de cidades médias no interior, poderia travar esta tendência – que, aliás, prejudica o próprio litoral, cada vez mais sobrepovoado, o que diminui ali a qualidade de vida. Pense-se, por exemplo, nas crescentes dificuldades de circulação e estacionamento automóvel em cidades como Lisboa e Porto. Ora um tal programa não seria exequível sem gastar muito dinheiro público, o que, na prática, significa que pouco ou nada de significativo será feito nos próximos anos.

Por isso, tem infelizmente razão o bispo de Vila Real, quando escreve “o interior do país já exausto, sem gente e sem meios, fica mais pobre e recebe o golpe de misericórdia, condenado ao desprezo e ao abandono”.

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  • Eduarda Andrade
    11 jul, 2018 Covilhã 19:46
    Aqui na Covilhã temos boas escolas básicas e secundárias. Há uma escola internacional privada e não financiada pelo estado. Há a Universidade da Beira Interior, com qualidade pedagógica e científica. Há o centro hospitalar Pêro da Covilhã. Temos excelentes médicos. Há clínicas médicas várias com muitas especialidades. Há empresas têxteis com êxito. Há empresas como a Frulact que faz também investigação científica na área alimentar. Há empreendedores jovens com êxito, alguns deles na área do têxtil.Temos o Data Center da Altice. Poderia continuar. Não compreendo como se fala tão mal do interior. Ou nunca cá estiveram ou falam de aldeias que se desertificaram nos anos 60 do século passado.
  • Sasuke Costa
    06 jul, 2018 Porto 23:35
    O importante é ter uma população sem carências que impeçam a satisfação das suas necessidades básicas, se existe nos grandes centros ou no interior pouco importa, opinião pessoal naturalmente, mas de qualquer forma tentar contrariar o movimento das populações, tipo Lenin, não me parece ser solução. Que saudades das aldeias cheias de gente, partilhar o caminho com os gansos, os patos, as ovelhas, toda aquela dinâmica regada com sol e amizade já foi, passou. Não é bom obrigar os alunos do ensino superior a vaguearem nessas terras adormecidas, necessitam de centros de congressos perto de centros de decisão, e não de inercia apelando à meditação, mas podem, por força da lei, obriga-los a ir para “decorarem” as ruas das terras adormecidas.