Opinião de Luís Cabral
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​Google e privacidade

06 jul, 2018 • Opinião de Luís Cabral


O Wall Street Journal noticiou e a imprensa em geral repetiu: se você tem Gmail, então as suas mensagens podem ser lidas por terceiros.

Milton Friedman dizia the não há almoços grátis (a frase não é dele, mas foi ele que a popularizou mais). A Google e a Facebook não são excepção. Oferecem-nos múltiplos serviços gratuitos, mas não são realmente gratuitos. O principal "preço" que pagamos é a informação que, de forma mais ou menos explícita, fornecemos aos grandes gigantes.

Por outras palavras, a privacidade — ou melhor, alguns aspectos da privacidade — fazem parte do "preço" a pagar pelos múltiplos serviços que recebemos.

Algumas observações a este respeito:

  • A ideia de serviços "gratuitos" não é inovadora. Ver canais "abertos" de televisão ou ouvir rádio ou ler jornais de distribuição gratuita também custa zero (no sentido estrito), mas implica que tenhamos de ver ou ouvir anúncios publicitários. É o preço que pagamos nesse caso. A Google e o Facebook podem ser vistos nesta linha.
  • Não é evidente que o fornecimento de informação à Google seja um custo, nalguns casos antes pelo contrário. Por exemplo, o facto de vários programas terem acesso ao meu email permite que, automaticamente, possa encontrar todas as minhas reservas de viagem (avião, combóio, hotéis, etc) sem ter de mexer um dedo. É um serviço que para mim tem grande valor. (Antes tinha de introduzir manualmente todas essas informações na minha 'app' de viagens).
  • Uma das implicações do 'tráfico' de informações sobre consumidores é que as empresas discriminem entre consumidores, oferecendo produtos e preços diferenciados para diferentes consumidores. Esta ideia de 'discriminação de preços' é tão antiga quanto a economia. A palavra 'discriminação' tem, como é natural, uma conotação negativa. No entanto, a prática pode trazer enormes benefícios para os consumidores.

Por todos estes motivos, a ideia de que a Google e outras empresas tenham informações sobre mim não me surpreende e não me preocupa em demasia. Pelo contrário, penso que, no balanço entre benefícios e custos, o primeiro prato pesa mais que o segundo, não só pelos benefícios directos da Google (conta de mail gratuita, excelente motor de pesquisa, etc) como também pelos serviços complementares que permite.

Como é natural, temos de evitar os abusos; mas temo que, como dizem os americanos, deitemos fora o bebé com a água do banho.

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  • MASQUEGRACINHA
    06 jul, 2018 TERRADOMEIO 18:56
    Parece não haver, pois, motivo para preocupações. Ou então o articulista (também) não se preocupa com o que parece ser o verdadeiro busílis da questão. Mesmo considerando que maçarem-nos até ao tutano não seja, de facto, um efeito colateral insuportável, dados os muitos benefícios e facilidades que vêm por arrasto, o problema, problema, é o seguinte: com os mesmíssimos dados que servem actualmente para o nosso eventual benefício, não será possível amanhã servirem para objectivos menos "beneficientes"? E até escusamos de ir tão longe como amanhã: já hoje, não são os mesmíssimos dados que servem para nos manipular politicamente? Ou isso ainda não está sobejamente provado? Ou o articulista considera que isso é negligenciável na tal balança dos "custos e benefícios" de que fala? Mais: a tal bondosa e paternalista "discriminação de preços" não servirá, mais do que "beneficiar" o consumidor, para o manter a consumir o que interessa ao produtor vender em massa, portanto nos "segmentos baixos"? É que para os "segmentos altos" a googlada até é contraproducente... Seja como for, não tema pelo bebé: é de novíssima geração, nasceu com ventosas, vai-se a água mas ele fica alapado à banheira. Aliás, como se tem visto.