Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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O grande fiasco do TGV na UE

04 jul, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A alta velocidade ferroviária é um fracasso na Europa. Portugal escapou por pouco, mas convém não esquecer as lições deste fiasco.

Há menos de uma década, o governo português, chefiado por José Sócrates, estava entusiasmado com a projetada linha ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e Madrid.

Face a dúvidas sobre a viabilidade económica do projeto, o ministro da Economia de então chegou a avançar um argumento extraordinário: o TGV teria numerosos passageiros espanhóis, que viriam pela manhã de Madrid, em Lisboa iriam para uma das praias próximas e ao fim da tarde regressariam à capital espanhola.

O projeto acabou por ser travado, felizmente, mas o Estado português – isto é, os contribuintes – ainda tiveram de pagar indemnizações por causa por um principio de obra já feita na via férrea.

Na altura, as numerosas linhas de TGV existentes na UE e sobretudo em Espanha (onde o nome é AVE – Alta Velocidade na Europa) fascinavam muita gente, que aspirava a ser “moderna”.

Ora o Tribunal de Contas Europeu, citado em editorial do “El Pais”, acaba de concluir que o AVE foi um grande fiasco. Aponta aquele Tribunal três razões principais para o desastre: sobrecustos descomunais, fracasso na captação de passageiros e incapacidade de conectar a alta velocidade com outros meios de transporte, como os aéreos.

Por exemplo, na linha Estugarda-Munique, na Alemanha, o sobrecusto chega aos 622%. Em Espanha, a linha Madrid-Barcelona (que recebeu 14 mil milhões de fundos comunitários) apresenta um sobrecusto de 39%; comenta o editorial do “El Pais” que essa linha não tem conexões com os aeroportos daquelas duas cidades nem consegue unir-se ao espaço europeu através de França. Nas outras linhas de alta velocidade em Espanha o sobrecusto supera em todas os 30%.

Na opinião do jornal espanhol, a construção e o funcionamento de linhas de alta velocidade em Espanha foram geridos sobretudo como “prémios políticos”. Ou seja, a racionalidade económica pouco ou nada contou. Entretanto, continua a não existir na Europa comunitária uma rede ferroviária integrada: o AVE (TGV) é “um conjunto sem coordenação entre os países, com sistemas isolados e deficitários”.

Em Portugal, escapámos por pouco – e não totalmente - à loucura. Conviria ter presente a lição deste fracasso, para evitar outras loucuras.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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  • João Martins Vieira
    04 jul, 2018 Lisboa 09:05
    Não concordo. O TGV é fundamental na ferrovia regional e a longa distância. É mais rápido que o automóvel e serve mais localidades do que o avião. Além de ser mais barato para os passageiros. A sua contribuição para a integração nacional vale mais do que o custo do investimento.