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Prémio Fé e Liberdade é "uma justíssima homenagem"

27 jun, 2018 • Opinião de Graça Franco


Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica distinguiu Fernando Magalhães Crespo esta quarta-feira, numa cerimónia no Estoril.

O Prémio Fé e Liberdade foi entregue este ano ao presidente emérito da Renascença, Fernando Magalhães Crespo, numa justíssima homenagem a quem, em Portugal, prestou um inestimável serviço à causa da liberdade religiosa e da liberdade de expressão.

Homem do seu tempo, com rara visão de futuro, fez da Renascença (integrado uma equipa de outros grandes homens) um colosso de influência política, religiosa e social. Sem se esquecer de deixar a sua marca de sucesso no futuro, com a criação da RFM e da Mega, o projeto (embora falhado) da TVI e a génese de uma digitalização muito antes do tempo Digital. Só recuando na história se tem a verdadeira noção da importância desse serviço do qual, de uma forma ou de outra, todos os cristãos portugueses lhe devem tributo.

Viveu tempos interessantes e foi nesses tempos (nos idos dos anos 70/80) que o “Engenheiro”, na altura já com nome firmado nalgumas das mais reputadas grandes empresas e consultoras internacionais, foi convocado a prestar o seu serviço à Igreja. A Renascença, empresa nascida do sonho de Monsenhor Lopes da Cruz nos anos 30, vivia o maior ataque da sua história. Magalhães Crespo respondeu ao desafio de D. António Ribeiro e sob a sua mestria diplomática e em sintonia com homens da estirpe do Cónego Gonçalves Pedro, Torgal Ferreira e Silvério Martins participou na missão quase impossível de resgatar a liberdade aos seus libertadores. Estes tinham caído na mais vulgar tentação de todos os revolucionários: manter a liberdade cativa, como privilégio de apenas “alguns escolhidos” que se arvoravam seus donos.

A luta foi dura. Mas Magalhães Crespo era, como os seus companheiros de equipa, a vários títulos um combatente temível e um negociador implacável. D. António tinha conseguido chamar Mário Soares para ao seu lado para ver reconhecido e proclamada a liberdade de todos e o direito à expressão pública da fé. O pai do PS, embora não fosse crente, foi de imediato suscetível à defesa da liberdade de expressão dos católicos em todas as matérias que à própria vida pública em sociedade diziam respeito. A Renascença, o seu conselho de gerência e o seu público, sempre lhe ficaram gratos pela grandeza do gesto e pela autoridade política que ele significara.

A partir daí todos os Governos conheceriam bem o nome do “Engenheiro”. Reconheceriam o seu prestígio e a sua fama de defensor intransigente do direito à palavra que pela sua independência e acuidade quase sempre se tornou num parceiro incómodo na convivência democrática. Desde a luta pelas frequências, ao lançamento das novas marcas e ao cumprimento escrupuloso de uma lei de rádio e televisão que nunca permitiu que servisse de mordaça à rádio mais livre do país.

Em Portugal rádio, desde aí e até hoje, escreve-se como o feliz slogan que nasceu no seu tempo: “com dois Rs”. A Renascença, onde Oliveira Pires seria diretor de produção e João Amaral diretor de Informação e Programação, mobilizou multidões, encheu praças e consolidou a liderança de grupo que ainda hoje mantém. Foi e é a vários títulos um fenómeno de influência e presença social transversal a classes e a todo o país de Norte a Sul. Magalhães Crespo não foi o único construtor do sucesso, mas contribuiu decisivamente para ele.

Diversificou as marcas do grupo nascente cobrindo todo o leque etário, percebendo que nos jovens (da Mega) estaria o futuro do grupo. Estendeu a sua ação ao mercado publicitário e de entretenimento e esteve em todo o lado, em todo o tempo. A obsessão pela presença e visibilidade da marca era uma nota marcante da sua gestão interna. Seriam livres os seus diretores, mas se não via os microfones com os RRs da Renascença num acontecimento que considerava relevante, choviam telefonemas na redação pedindo meças à decisão editorial de deixar de marcar presença no evento.

O projeto da TVI foi uma das suas paixões e um dos seus maiores fracassos, mas tal como nas vitórias o mérito não lhe coube por inteiro não é justo aqui imputar-lhe a maior culpa. Não tivesse a filha independente “matado” precocemente a mãe e talvez a sorte da influencia social da Igreja no audiovisual fosse hoje diferente.

Os grandes homens nunca são consensuais. Magalhães Crespo não foi. Gestor controverso, presença demasiadas vezes incómoda, voz interpelante vezes demais. Fez tantos amigos quanto inimigos. Não gostava de ser contraditado e esse foi a sua maior fragilidade. O futuro deu-lhe razão em quase todas as suas apostas. Os portugueses devem-lhe a sua voz independente e a Igreja deve-lhe o seu testemunho de trabalho intenso, visão estratégica, coragem e fé.

Os que tiveram a sorte de com ele trabalharem, devem-lhe muito mais. Incentivos, ralhetes e uma exigência compatível com a presença amiga. “Amiga”, o qualificativo que mais defendia para a sua e nossa rádio: “Companhia Amiga”. Foi isso que ele sempre advogou como o principal papel da Renascença. Isso e que os seus trabalhadores fizessem um uso criterioso e responsável de cada palavra dita ao microfone. Nunca “inútil” ou gratuita, mas sempre oportuna e verdadeira, como quem sabe que a palavra é uma arma que não se pode, em caso algum, desperdiçar.

Ficou-me gravado o seu conselho: quando fores ao microfone “pensa no que vais dizer, e porque o vais dizer” e senão interessar mais vale calar. Ainda hoje tento cumprir a sua preciosa máxima. Obrigada “senhor engenheiro”, também por isso.

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