Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Merkel – e a UE – em dificuldades

20 jun, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Até que ponto pode a UE manter como Estados-membros países onde os valores europeus são desprezados?

Era habitual, na União Europeia, esperar por uma decisão de Merkel para resolver um problema europeu. Agora, ocorre o inverso: Merkel espera um acordo europeu para ultrapassar a crise com os democratas-cristãos da Baviera (CSU), um partido irmão da CDU.

A coligação CDU-CSU existe desde 1949, mas está hoje em risco de colapsar, o que levaria à queda do governo alemão. O ministro do Interior de Merkel é da CSU e pretende levar por diante um controle fronteiriço muito mais hostil aos refugiados e imigrantes do que o admitido por Merkel.

Em outubro haverá eleições no estado da Baviera e a CSU receia que o partido Alternativa para a Alemanha, eurocético e contrário à entrada de imigrantes, tire a maioria absoluta que a CSU tem mantido no parlamento estadual. Daí a iniciativa do ministro da CSU.

Uma cisão entre a CDU e a CSU seria prejudicial para ambos os partidos, que seriam penalizados em novas eleições. E também para o SPD. Ganhariam os extremistas da Alternativa. E a cisão seria desastrosa para a UE, pois Merkel desapareceria de cena – e ela, embora enfraquecida, ainda é essencial para travar uma desintegração da Europa comunitária.

A hostilidade aos imigrantes é a grande bandeira política da extrema-direita europeia – o que não é novidade, basta lembrar a Frente Nacional francesa. Mas tem alastrado a outros Estados-membros, incluindo países onde não há imigrantes, caso da Polónia. Como Rui Tavares sublinhou na sua coluna no “Público”, este ano houve uma enorme redução no número de entradas de imigrantes e refugiados no território europeu, bem como no número de requerentes de asilo.

Na Alemanha mais de 720 mil pessoas pediram asilo em 2016; no ano passado foram apenas 200 mil e no corrente ano a tendência de baixa continua.

Só que espicaçar o medo das pessoas face ao imigrante rende votos. Trump criticou a abertura da Alemanha aos estrangeiros, afirmando que estes haviam feito subir a criminalidade no país – uma total falsidade, pois a criminalidade tem vindo ali a baixar significativamente.

Merkel ainda goza de alta popularidade na Alemanha. Oxalá consiga encontrar uma saída honrosa para este confronto com a CSU. Uma “solução europeia” não será nada fácil de obter. E para isso Merkel terá que negociar com líderes que cada vez têm menos características democráticas – Salvini, da Itália, e os governos da Hungria, Polónia, República Checa, Eslováquia, Áustria, etc.

Ora aqui levanta-se um problema mais profundo: até que ponto pode a UE manter como Estados membros países onde os valores europeus são desprezados?

Comentários
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  • Elsa
    20 jun, 2018 penamacor 11:59
    Os valores europeus já ninguém sabe quais são perante a intoxicação ideológica.esperar dos diferentes estados comportamento único é ser utópico nem nos EUA.A EU está cada vez mais a caminho de uma ou de varias ditaduras e os europeus rejeitam porque os valores europeus são impostos e saíram da linha judaico -cristâ,logo são contra natura e o choque vai dar-se para gaudio dos EUA,RUSSIA E CHINA.
  • Marco Almeida
    20 jun, 2018 Olhão 10:31
    Valores Europeus? Mas quais valores? A UE é uma aberração, já era, democracia que é bom nada de nada, começando pela comissão europeia que não foi eleita por ninguém e faz o que quer e bem lhe apetece atropelando tudo a seu belo prazer, veja-se os tais referendos que foram feitos em certos Países, como não era ao gosto deles foram sendo repetidos até darem o resultado desejado, a UE é uma farsa, uma nojeira pegada, abençoados Ingleses que abriram os olhos a tempo
  • Helder
    20 jun, 2018 Algueirão-Mem Martins 09:41
    "até que ponto pode a UE manter como Estados membros países onde os valores europeus são desprezados?" está a referir-se a estados mmembros onde existem comunistas soviéticos nas decisões do estado?