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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​O preço da demagogia

18 jun, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A propaganda do “fim da austeridade” começa a funcionar ao contrário, multiplicando os desiludidos com um governo que lhes prometeu o que não podia dar.

Como já tinha várias vezes dito, a propaganda do “fim da austeridade” do governo da “geringonça” criou expectativas que, agora, não conseguem ser satisfeitas. “Voltou-se a página da austeridade”, “este governo mostrou como é possível pôr a economia a crescer, reduzir o défice orçamental e cumprir as normas do euro, sem austeridade” – mensagens como estas foram repetidas vezes sem conta nos últimos dois anos.

E, de facto, foram revertidos alguns cortes feitos pelo anterior governo, sobretudo em salários da função pública e pensões. Por vezes com demasiada pressa. Foi o caso, por exemplo, do retorno às 35 horas semanais de trabalho na função pública. Por causa disso, vários serviços estão a ser fechados em hospitais. É que não têm verba autorizada para contratar mais pessoal, de modo a compensar a redução do horário. Sofrem os doentes.

E, no caso da educação, o governo não levou em conta o facto, tudo menos inesperado, de que o envelhecimento da população portuguesa diminuiria, como está a diminuir, o número de alunos. Entretanto, o número de professores não cessou de aumentar.

É positivo que o governo tenha reduzido o défice orçamental. Mas as cativações impostas pelo ministro das Finanças, necessárias para poupar despesa sem fazer reformas, colocam muitos serviços públicos à beira da rotura. Sofrem os utentes, sobretudo os mais pobres, que não podem recorrer a serviços privados, que são caros.

A travagem na progressão nas carreiras de professores, militares, polícias, etc. (não contando todos os anos de serviço) compreende-se pela necessidade de prosseguir a consolidação orçamental numa altura em que o ambiente financeiro internacional está carregado de sombras: o Brexit e os seus efeitos na redução dos fundos europeus para Portugal, o governo populista de Itália (eurocético) e o seu efeito na subida dos juros da dívida, o fim anunciado da compra de títulos de dívida soberana pelo BCE, a subida dos juros nos EUA, a guerra comercial desencadeada por Trump, o abrandamento na expansão da economia, na Europa e em Portugal, etc. Várias destas evoluções negativas eram mais do que previsíveis; mas só agora o Governo vem dizer que “não há dinheiro” - lembram-se do antigo ministro Vítor Gaspar?

Assim, a insistência na demagogia facilitista durante longos meses (e ainda hoje...) não preparou os portugueses para esta nova página de austeridade disfarçada, pelo contrário. O Governo de A. Costa colocou-se numa posição ingrata. Não só de algum modo legitima a demagogia populista – então há dinheiro para os bancos e ele falta para professores, militares, polícias, etc.? – como acentua o sentimento, por vezes injusto, de que o Estado não é pessoa de bem, descredibilizando a democracia.

A ironia desta situação é que a irresponsável insistência em que tinha acabado a austeridade, propaganda que inicialmente aumentou as possibilidades de o PS alcançar uma maioria absoluta nas próximas eleições, começa agora a funcionar ao contrário. Aumentam os desiludidos e os revoltados com o governo do PS; afinal, não chegámos ao paraíso. É o preço da demagogia.

Comentários
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  • City
    18 jun, 2018 Porto 16:39
    Houve falta de realismo e o não saber gerir as espectativas.Em termos de propaganda ultrapassou todas as linhas vermelhas e agora tem q retroceder ou se ceder acontece uma grande bronca,a maior bancarrota de sempre e superior á de Sócrates q foi posto no PODER por JORGE SAMPAIO,ao arrepio da maioria absoluta existente.Orgulhoso??????