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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Travar a desintegração da UE

14 jun, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A UE está ameaçada por várias crises. Mas o afastamento dos EUA pode funcionar como factor de unidade.

Numa importante entrevista a Manuel Castells, conduzida pela jornalista da Renascença Catarina Santos, o conhecido sociólogo catalão manifesta grande pessimismo quanto ao futuro da União Europeia. De facto, a integração europeia enfrenta um conjunto de crises graves que poderão levar à desintegração da UE.

É o Brexit; a incapacidade de forjar e fazer cumprir uma política europeia de asilo e imigração; a crescente onda de euroceticismo, até em países fundadores da integração, como a Holanda; o desvio antidemocrático em países como a Hungria e Polónia; a subida da extrema-direita contrária à imigração e ao euro (a Itália é o último exemplo); a viragem na política externa americana, que desde o fim da II Guerra Mundial apoiou e impulsionou a integração europeia e agora, com Trump, a hostiliza, etc.

Tem razão M. Castells quando acusa os políticos europeus de terem sistematicamente ignorado os cidadãos. Não é de estranhar que a Europa comunitária tenha sido construída por elites; mas estas deviam ter acolhido – e não ignorado – os sucessivos sinais de alheamento das opiniões públicas europeias, como foi o referendo em França, em 1992, sobre o Tratado de Maastricht, aprovado por uma unha negra; ou a rejeição da “constituição europeia” (de facto, um tratado constitucional) em França e na Holanda em 2005.

Creio, porém, que é um exagero falar num “galopante défice democrático”, uma vez que quase todas as decisões importantes na UE são tomadas por políticos democraticamente eleitos – o Conselho, onde estão os governos dos Estados membros, e o Parlamento Europeu.

E há alguns dados positivos suscetíveis de, pelo menos, moderar o pessimismo de M. Castells. Um é a unidade dos 27 Estados membros face à saída do Reino Unido. As dificuldades nas negociações do Brexit derivam de conflitos internos do lado britânico e não de divisões na UE.

O outro dado que pode ajudar a unidade na UE é a viragem americana. Depois do que aconteceu no último G7, na Canadá, Merkel aproximou-se de Macron. A chanceler disse mesmo que a atitude de Trump no G7 reforçara a necessidade de união entre os países comunitários. E elogiou as medidas de retaliação anunciadas pela UE. O apelo de Merkel à unidade europeia foi depois secundado por vários ministros da RFA.

Importa, a propósito, recordar que a ameaça soviética se tornou um importante “cimento” da integração europeia durante a guerra fria. Agora, o afastamento dos EUA de Trump, que aplaudiu o Brexit e quer prejudicar a Alemanha no plano comercial, talvez funcione como um travão à desintegração da UE.

Refira-se, ainda que o governo italiano já teve que moderar publicamente as suas posições contrárias ao euro e à UE, porque a opinião pública da Itália não as perfilha.

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