Opinião de Henrique Raposo
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Opinião de Henrique Raposo

​Não há casamentos estáveis

08 jun, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Há sacrifício e muito trabalho. As pessoas que se mantêm casadas não nasceram com um feitio casadoiro; estão é disponíveis para a renúncia e para mudar.

Como é que fazes para ter um casamento estável? Quando me fazem esta pergunta, confesso que desato a rir. Lá peço desculpa ao interlocutor, mas a verdade é que a pompa da pergunta encontra a galhofa deste lado. O que é “um casamento estável”? Parece-me um oximoro.

Não conheço casamentos estáveis, ou melhor, conheço: são aqueles que acabam em divórcio. Um casamento estável é uma união rígida que vai quebrar como uma torre de granito mal construída, uma torre sem a flexibilidade para suportar a imprevisibilidade da vidinha.

Este cisne negro, o imprevisto, está lá desde a génese: nós apaixonamo-nos de forma imprevisível; o amor não surge porque nós decidimos apaixonarmo-nos por esta ou aquela pessoa; a paixão é exterior à nossa capacidade de programação e antecipação. Nós depois decidimos se deixamos ou não a paixão entrar, mas a sua ignição está fora do nosso controlo. Quando a paixão adquire a couraça do casamento, a surpresa e a imprevisibilidade não desaparecem. Pelo contrário.

Um casamento que perdura não tem a estabilidade da torre granítica, mas sim a elasticidade das canaviais ao vento. Os casamentos que batem o divórcio são aqueles que aceitam o inescapável caos da vida, procurando uma constante adaptação a cada momento no sentido de se preservar o essencial, o casal, o lar, a família.

Um casamento arrumadinho é um casamento condenado e, infelizmente, a maioria dos casamentos do nosso tempo sofre desta obsessão com a arrumação que se desorienta perante a casa desarrumada que é uma família: ele é a filha que está doente, logo é preciso suspender o trabalhar esta semana; ele é o filho que está de férias, logo é preciso parar de trabalhar duas semanas ou um mês; ele é a sogra que está doente, logo é preciso passar uma semana fora; ele são as mudanças de trabalho dele ou dela, que forçam um permanente reajuste dos ritmos domésticos; ele é a falta de tempo para ler, ver a netflix ou ver o Benfica, porque o mais novo está com febre ou porque é preciso passar tempo com a mãe que está em convalescença; ele é o mais novo que afinal não quer ser advogado mas sim artista; ele é a mais nova que afinal não quer ser artista mas sim engenheira.

Quase nada no casamento obedece a uma lista predefinida de prazeres, projetos ou ambições. E não vale a pena pedir pausas ou fugas. A felicidade não está num fim de semana num hotel em Paris ou numa semana de praia sem os miúdos. Isso não é felicidade, é a negação da realidade. Um casamento que não encontra a felicidade na rotina instável do dia a dia é uma granada pousada na cómoda (já sem cavilha).

Quem não aceita esta desordem criativa da vida não consegue estar casado muito tempo. E a maioria das pessoas do nosso tempo não consegue de facto lidar com esta instabilidade que destrona o controlo absoluto do “eu”. O “eu” pós-moderno herdado do Maio de 68 quer o controlo absoluto. Mas claro que o absoluto controlo acaba na absoluta solidão, numa taxa de divórcios a rondar os 70%, em famílias minúsculas, em filhos únicos, velhos sozinhos ou abandonados.

Mas então qual é o segredo? Não há segredo. Há sacrifício e muito trabalho. As pessoas que se mantêm casadas não nasceram com um feitio casadoiro; estão é disponíveis para a renúncia e para mudar.

Se quiserem, o tal segredo não é ambicionar à quimérica estabilidade que conforta o nosso feitio fechado e intransigente; o truque é ir mudando o feitio, “é mudar junto”, como dizia há tempos Arnaldo Jabor.

O casamento não é uma ilha que se ergue, titânica, acima das águas do oceano. É, isso sim, uma frágil barcaça em constantes reparações em pleno alto mar. O casamento faz até lembrar aquele velho mestre cuja função era tapar os buracos no casco de madeira dos navios antigos. A entrada da água era inevitável, mas o naufrágio era evitável. Os navios mantinham-se à tona da imprevisibilidade devido ao trabalho invisível daquele mestre carpinteiro que selava buracos enquanto bombeava água borda fora.

Comentários
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  • carmen
    04 set, 2018 Matosinhos 01:39
    Muita sabedoria e conhecimento de causa nestas palavras. Casamento é sem dúvida trabalho de rotina e sacrifício. É amor constante , um remar contra as marés dos imprevistos, do nervosismo à flor da pele. Casamento é resistência à adversidade. Em tudo isto estamos de acordo Henrique Raposo.
  • Paula Cristina Duque
    08 ago, 2018 machico Madeira 23:09
    Parabéns! maravilhoso o seu texto. tenho 4 filhos e consegui rever trechos da minha história neste texto, pelo que concordo perfeitamente. É uma aprendizagem, e se queremos ser felizes de forma consciente é manobrando consoante o acontecimento. Aceitação e muito amor! Paula Duque
  • Ana Queiroz
    01 jul, 2018 Guarda 20:54
    Fantástica lucidez do dia-a-dia do que é a resistência voluntária num casamento. Amei, Henrique!
  • neves carneiro
    12 jun, 2018 Lisboa 16:38
    Recomendo a leitura de um texto que ajuda a mergulhar um pouco mais naquilo que o Henrique fala: marriage is for losers. Gostei do realismo.
  • Nuxa
    12 jun, 2018 lisboa 15:28
    O casamento duradouro depende da disponibilidade das partes em assumir determinadas,responsabilidades e grandes tolerâncias.A vida começa e acaba com enormes transformações em tempos diferentes inevitáveis que se aceitam ou não.No seu decurso têm-se vivencias extraordinárias e desordens quase psicóticas. É um projeto inabalável para uns e uma simples ocorrencia para outros.O gostar de estar numa relação e a maturação da mesma é o q conduz a casamentos longos ,os restantes não casam ou então divorciam-se.
  • Raul Monteiro
    11 jun, 2018 Queluz 19:35
    Gostei do sentido geral da manutenção do matrimonio, dos meios que podem ser utilizados para que a união dos conjuges se consolide e não o contrário! Mas ter de ser um sacrifício creio firmemente o contrário. Quem ama de verdade NÃO CANSA NEM SE CANSA! Tudo é feito por AMOR. Por isso e porque não conheço melhor faça o favor de ler os versículos 4 a 7 do capitulo 13, da primeira carta do apostolo S.Paulo aos Coríntios. Verdadeiro HINO AO AMOR e a receita para os matrimonios longos e solidos. Abraço
  • Antonio Gomes
    11 jun, 2018 Fafe 08:19
    O casamento, como em tudo na vida, é uma união que visa a concretização de um conjunto de interesses de vida que temos (e que, na fase inicial, nem sabemos bem quais, mas temos a ideia de ser por ali). Discutir a ignição da paixão (que se transforma, ou não, em couraça de casamento, e que "é exterior à nossa capacidade de programação e antecipação", já é uma prova que não só não nos conhecemos, como não sabemos bem no que nos vamos meter. Quanto ao "controlo absoluto",advir do "Maio de 68"... é mais provável que resulte da santa ignorância de séculos de obscuridade imposta pelo catolicismo e pela falta de respostas a esta e à maioria das grandes questões com que a sociedade se defronta — hoje e desde então —, pela simples razão de viver da mentira de Deus para ganhar dinheiro.
  • Albino Pereira da Silva Silva
    09 jun, 2018 Ribeira de Pena 23:20
    Sacrifício e disponibilidade para a renúncia e para a mudança, com a graça de Deus: este o meu segredo para 37 anos de casado, partilhado pela minha querida esposa.
  • Manuela
    09 jun, 2018 lx 23:13
    É isso aí!? "há quem acredite em milagres/há quem cometa maldades/e há quem não saiba, dizer as verdades.../o vendedor de flores, ensinando seus filhos a escolher seus amores!/ e eu, não vou parar de te olhar!/ não vou parar, de te olhar..." Ao ler este texto, comparei-o com esta música brasileira: "é isso aí..." nada mais acertado, que ler o que o Henrique Raposo escreveu! e ouvir essa música, que por simples palavras, diz tudo. 'E eu, não vou mais, deixar de olhar, o que você escreve'. Bom fim de semana e bom feriado: " As armas e os Barões assinalados/ Que da Ocidental praia Lusitana/ Por mares nunca de antes navegados/Passaram ainda além da Taprobana/Em perigos e guerras esforçados/Mais do que prometia a força humana." Luís Vaz de Camões, pôs em destaque: a força humana! neste (canto 1) dos Lusíadas. E como as palavras são 'como as cerejas', a força humana, também entrou neste seu texto, tal como o Poeta! Bem Haja, Henrique Raposo.
  • Hermínia Nadais
    09 jun, 2018 Santa Cruz, Macieira de Cambra 22:00
    Maravilhoso... e verdadeiro... o melhor texto que já li sobre o tema 'Casamento' Parabéns!