Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A vaga antidemocrática

05 jun, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A tendência para Estados autoritários não se manifesta apenas na Europa. É global, mas não inevitável.

A UE conta com mais um governo hostil aos imigrantes e com tendências autoritárias: o da Eslovénia. Na UE já tínhamos a Hungria, a Polónia, a República Checa...

Estes países podem invocar a desculpa de décadas de submissão ao comunismo soviético, que não foi propriamente uma escola de democracia. Mas aí está o novo governo da Itália, país fundador da integração europeia, que manifesta posições que lembram Mussolini, morto em 1945.

Portugal e Espanha parecem felizmente imunes à onda populista autoritária e não democrática. Talvez porque as longas ditaduras de que sofreram no séc. XX ainda estejam presentes no inconsciente coletivo, valorizando a democracia, por muito imperfeita que ela seja.

Mas a tendência autoritária não se manifesta apenas na Europa. Os EUA, país democrático desde a sua fundação, têm hoje um Presidente que só não é mais autocrático porque as barreiras democráticas ainda ali funcionam, embora menos do que no passado. Trump foi eleito, mas isso pouco significa – Hitler também foi.

A “Primavera árabe” cedo se transformou num duro inverno. Veja-se o Egito. Ou a Síria, cujo ditador sanguinário se propõe visitar a Coreia do Norte – o regime da dinastia Kim aparentemente agrada-lhe.

A democracia na Rússia pós-soviética foi uma ilusão que durou pouco. Nunca aquele país viveu em regime democrático. Já na China esperava-se que a abertura económica aos mercados, introduzida por Deng Xiao Ping nos anos 80 do séc. XX, e o fulgurante crescimento da economia chinesa, levassem a uma gradual abertura política.

Mas com Xi Jinping, agora líder vitalício da China, a ditadura do Partido Comunista Chinês acentuou-se. Multiplicam-se os controlos sobre a população. A vigilância brutal das pessoas por parte do poder político até é bem acolhida pela maioria da população chinesa, que assim se sente mais segura.

E a maior parte das dezenas de milhares de jovens chineses que vêm frequentar estudos superiores nos EUA e na Europa não mostra grande apreço pela democracia liberal e pelas liberdades cívicas e políticas. Prefere o regime chinês.

Será, então, que a democracia vai desaparecer? Era isso que se pensava há quase um século, face ao triunfo dos totalitarismos de esquerda e de direita. Mas a democracia liberal renasceu. E certamente no séc. XXI ultrapassará esta fase de recuo, sem guerra.

Mas importa ter consciência de que a democracia é um regime frágil, que um qualquer populismo pode destruir, pelo menos temporariamente.

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