Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Uma guerra sem vencedores

04 jun, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O protecionismo agravou a Grande Depressão dos anos 30 do séc. XX. Mas Trump pensa como um mercantilista do séc. XVIII.

Em junho de 1930 entrou em vigor uma lei protecionista nos EUA, o “Smoot-Hawley tariff bill”. A ideia nasceu antes da “sexta-feira negra” em Wall Street e visava inicialmente proteger os agricultores americanos, que nessa altura representavam quase um quarto da população ativa do país. Depois, foram acrescentadas ao projeto de lei fortes subidas de direitos aduaneiros sobre importações industriais. O colapso da bolsa em 21 de outubro de 1929 deu o impulso definitivo à lei protecionista, que subiu entre 40 e 48% os direitos aduaneiros sobre a entrada nos EUA de cerca de 900 mercadorias.

Os efeitos desta lei foram muito negativos. Os parceiros comerciais dos EUA retaliaram, por vezes, até, com desvalorizações competitivas das suas moedas. O protecionismo subiu o preço das importações nos EUA, nomeadamente de produtos alimentares, acentuando a miséria de muita gente que havia perdido tudo na queda da bolsa e na falência dos bancos que se seguiu. O comércio internacional baixou 65%. As exportações americanas caíram de 7 mil milhões de dólares em 1929 para 2,5 mil milhões três anos depois; e em 1933 as exportações agrícolas dos EUA valiam apenas um terço das registadas em 1929.

Mas a experiência do passado nada terá ensinado a Trump e aos seus seguidores. Agora viola regras da Organização Mundial do Comércio, o que até agrada a quem, como o presidente dos EUA, detesta organizações multilaterais. Atitude que o leva a querer acabar com a NAFTA (zona de trocas livres de que fazem parte os EUA, o Canadá e o México), substituindo-a por acordos bilaterais.

É certo que ainda não chegámos a medidas como as contempladas na lei Smoot-Hawley de 1930. Mas as negociações com a China falharam. Tudo indica que o presidente americano está apenas a iniciar um processo que irá muito mais longe. Isto, apesar de tradicionalmente o Partido Republicano ser favorável ao livre comércio. Só que esse partido já não é o que era.

A presente guerra comercial foi desencadeada por Trump, que tem uma ideia “mercantilista” da economia, como se vivêssemos hoje no séc. XVIII. A globalização multiplicou as interconexões entre economias nacionais, promovendo circuitos de produção que passam por vários países. Por isso os entraves ao comércio colocados pelo protecionismo americano prejudicarão muitos produtores dos próprios EUA, apesar de estes possuírem um vastíssimo mercado interno.

As inevitáveis retaliações podem levar a uma escalada de obstáculos e travões ao comércio internacional. Portugal, cuja economia – felizmente – cada vez mais assenta nas exportações, será dos mais atingidos.

Temos de nos preparar para políticas de limitação de danos. Sem cair nas falácias populistas dos adversários do livre comércio e da democracia liberal.

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