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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Marx e a liberdade

12 mai, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Em nenhum país onde foi aplicada a ideologia marxista se conseguiu, até hoje, respeitar as liberdades cívicas e políticas.

Karl Marx nasceu há 200 anos. As suas ideias revolucionárias tiveram enorme influência no século XX. Desde logo, influência política, com a revolução bolchevista na Rússia em 2017, dando origem à União Soviética. Mas também influência cultural: nos vinte ou trinta anos seguintes ao fim da II Guerra Mundial o marxismo era dominante nos círculos académicos europeus, sobretudo em França, e até, em menor grau, nos americanos.

Mas o colapso do comunismo soviético, simbolizado pela queda do muro de Berlim em 1989, reduziu drasticamente a influência cultural e política do comunismo. Tornou-se claro que o “paraíso soviético” era quase uma prisão e não tinha o dinamismo económico do capitalismo.

Alguns procuraram circunscrever as “maldades” do comunismo soviético a Estaline – de facto, um monstro. Mas é precisa muito boa vontade para isentar Lenine e mesmo Trotsky em matéria de direitos humanos: cumprindo o que eles diziam ser a “ditadura do proletariado”, revelaram, para quem não fosse ideologicamente cego, uma clara disposição sanguinária.

A vitória capitalista não trouxe uma maravilhosa sociedade, como logo preveniu João Paulo II, que combateu o comunismo no seu país, a Polónia, mas estava consciente (como, aliás, os seus sucessores) das limitações morais do capitalismo. Pelo contrário: vitorioso, o capitalismo tornou-se mais selvagem, culminando na crise global iniciada em 2007 nos EUA. Por isso houve algum regresso a Marx. Um Marx mais autêntico e complexo, livre das simplificações de Engels e de outros seguidores.

Os “socialismos reais”

Marx teve algumas intuições certas e muitas outras erradas, isto é, desmentidas pela história. O grande problema do marxismo, hoje, está em que onde ele foi aplicado deu origem a países sem liberdade. Depois da União Soviética e dos seus satélites (o chamado “socialismo real”), os exemplos da China, da Coreia do Norte, de Cuba, da Venezuela, etc. não são encorajadores.

O caso mais interessante é o chinês. É que a China teve um crescimento económico fulgurante, tornando-se a potência mundial mais importante, depois dos EUA. Antes disso, a chamada revolução cultural de Mao, tão elogiada em círculos intelectuais europeus, tinha sido um desastre económico e social de grandes proporções. Mas depois Deng Xiao Ping abriu uma grande parte da economia chinesa ao mercado (mas manteve o comando político pelo partido único), lançando o tal fulgurante crescimento.

A Revolução Francesa aconteceu porque a burguesia enriquecida não aceitou ficar arredada da política; esperava-se que a China seguisse um caminho semelhante. Mas não: os muitos milhões de chineses que se tornaram ricos não parecem interessados em participar livremente na cena política. Com o agora vitalício presidente Xi Jinping, não há forte contestação ao crescente controle da vida chinesa pelo Partido Comunista Chinês. Pelo contrário: a maioria dos chineses aplaude a ditadura deste partido único, sentindo-se mais segura.

Bons e menos bons chineses

Xi Jinping tem insistido na importância de Marx para o “socialismo chinês”. Depois de quarenta anos durante os quais o sector privado teve um grau de liberdade nunca visto em qualquer outro país reclamando-se do marxismo, o PC chinês intervém cada vez mais, agora, na vida das empresas e nos negócios. É o que alguns intelectuais apoiantes do regime chamam o “marxismo do século XXI”, com específicas características chinesas.

A tutela estatal (ou partidária, já que Estado e Partido mal se distinguem na China) sobre a vida da população atingiu recentemente um extremo chocante, que foi tema de uma elucidativa reportagem da jornalista Inês Rocha, que pôde ser lida e vista nesse “site” há dias.

Os chineses, todos os chineses, são permanentemente vigiados de muitas maneiras, inúmeras das quais existem também nas democracias liberais – as câmaras de vídeo vigilância, os acessos à net em geral e às redes sociais em particular, os pagamentos com cartão de débito/crédito, o fisco, etc. A diferença está em que, nessas democracias, ninguém se arroga em juiz de condutas legais. Ao invés, na China o Estado/partido avalia o comportamento de cada um e atribui-lhe pontos.

Os “bem comportados”, com mais pontos, são considerados bons cidadãos; os outros passam a cidadãos de segunda, sendo privados de uma série de direitos. É o chamado e oficial “sistema de crédito social”. E o mais deprimente de tudo é que, segunda as sondagens, a maioria dos chineses gosta dessa humilhante tutela.

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  • Lidia Saragaco
    16 mai, 2018 Sofia 07:48
    É interessante que choca a atribuição de "créditos sociais" e não choca o facto de eleições em ditas sociedades democráticas (US e Brexit) terem sido manipuladas através de dados de cidadãos obtidos ilegalmente. Tanto uma como outra devem-nos chocar, mas no caso da China, pelo menos, ao que percebi os cidadãos têm conhecimento do que está a ser feito, no Ocidente os cidadãos só descobriram quando já era tarde demais.