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Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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A fraude da eutanásia

09 mai, 2018 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Choca-me que um tema desta importância seja suprimido ou dissimulado nos programas eleitorais, para sair depois da cartola, a reboque de uns quantos.

Não será demasiado perigoso confiar aos homens - a qualquer homem, inclusivamente a nós próprios - a decisão de quem deve morrer ou viver? Estou convencido que sim.

Numa decisão tão radical quanto a da vida e da morte, o desespero fácil (de quem se julga condenado) e a manipulação dos mais frágeis (surpreendidos por circunstâncias inesperadas) constituem atalhos rápidos para a asneira.

Prefiro que na eutanásia o Estado esteja quieto. Mas que se mexa, e muito, nos cuidados paliativos. Para que todos possam viver os seus últimos dias com dignidade, qualquer que seja a sua condição económica e vivam onde viverem: nas ilhas, no interior ou no litoral.

E se há partidos responsáveis que defendam a eutanásia, assumam a convicção no terreno e no momento próprios. Avancem com um programa eleitoral que reivindique tal proposta. Não façam calculismo eleitoral, ousem propor o que defendem no momento em que os elei-tores escolhem os seus representantes. Não disfarcem hoje o que pretendem amanhã.

Choca-me que um tema desta importância seja suprimido ou dissimulado nos programas eleitorais, para sair depois da cartola, a reboque de uns quantos.

Há muitos anos que o PS sofre da síndrome do BE. Os bloquistas agitam um tema forte, trazem-no para a praça pública como a última coca-cola do deserto, e o PS apressa-se a cobrir a parada, não vá alguém pensar que a modernidade o deixou para trás. Tem sido assim em muitas circunstâncias e em diferentes legislaturas. E assim é de novo no tema da eutanásia.

Claro que no programa eleitoral do PS de 2015 nada se dizia sobre a eutanásia.

Curiosamente, na plataforma eleitoral do Bloco de Esquerda para as eleições de 2015, também nunca encontrei a palavra eutanásia nem a sua defesa: se lá está, estará muito bem disfarçada, não vá o eleitor incauto preocupar-se, antes de tempo, com temas essenciais.

Chama-se a isto respeitar os eleitores e valorizar a democracia?

A resposta é simples: aprovar no parlamento um tema como a legalização da eutanásia, sem o propor em devido tempo, não é menos do que uma fraude.

Não é bonito, mas é o que é.

Comentários
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  • mara
    10 mai, 2018 Portugal 19:08
    Esta gentalha que gosta tanto da eutanásia há muito devia ter enchido uma seringa de eutanásia e ter caminhado para S: Pedro porque não teria mais sofrimento quando se encontra com a peste grisalha que lhe está desviar euros que podem ficar só para eles...
  • Anónimo
    09 mai, 2018 22:31
    Não me parece que este cronista saiba o significado de "eutanásia".
  • João Paulo Pereira
    09 mai, 2018 Lisboa 20:46
    Até poderia ser um bom inicio de discussão, se não confundisse duas situações distintas, que mesmo embora podendo e dever coexistir e ser tratadas de forma séria, uma não invalida a outra. Falar em "desespero fácil", sobre "quem se julga condenado", é no mínimo arrepiante e digno de uma adjetivação que aqui não caberá. Talvez por isto mesmo, uma discussão séria sobre algo com relevância social, esteja apriori ferido de morte.
  • MASQUEGRACINHA
    09 mai, 2018 TERRADOMEIO 17:44
    Concordo, em substância, com o que escreve. É de facto sempre perigoso atribuir tal poder, e mais perigoso ainda num país que não tem camas nos hospitais para os doentes, quanto mais para os moribundos. Não sei se o Estado deve manter absoluta quietude quanto à eutanásia - casos há e haverá em que a misericórdia se impõe, e é praticada, não duvidemos. A própria lei actual prevê a situação, aliás. No entanto, acho de uma estupidez óbvia que se pretenda legislar em semelhante tema sem que exista a base mínima para tal, e que é, e não pode deixar de ser, a existência de uma rede de cuidados paliativos funcional e abrangente - que permita a existência de reais alternativas. E só depois teria sentido começar a discutir possível legislação, levando em linha de conta a (algo alarmante) experiência de países onde coexiste tal rede de cuidados paliativos e eutanásia. Mas só depois. Partilho, também, a estranheza perante as retorcidas manobras políticas que têm rodeado este tema. Só acho que o articulista borra um pouco a pintura, e é pena, com a escusada truculência contra o BE, que dir-se-ia ser a "má companhia" que leva o PS por caminhos desviantes... e já agora porque não o PSD também, cujo líder, há que reconhecer-lhe a frontalidade, se assume pessoalmente a favor da eutanásia e dá liberdade de voto aos deputados? É que, manobras à parte, nada leva a crer que as pessoas do BE não sejam tão bons pais e mães de família como os outros, ou que tenham alguma agenda tenebrosa em curso.