Opinião de Manuel Pinto
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​O desafio de desconectar-se

07 mai, 2018 • Opinião de Manuel Pinto


A muitos aconteceu já perder o rasto ao telemóvel ou ele avariar-se, levando à abstinência de conetividade pelo menos umas horas ou (escassos) dias. Mas todos são unânimes na síndrome de carência e consequente desatino.

Em sucessivos encontros com jovens, nomeadamente universitários, sempre que tal se proporciona, tenho feito esta pergunta: achas que consegues estar três dias ou mesmo uma semana sem smartphone e sem ligação à Internet? A dificuldade de encarar sequer o sentido da pergunta tem vindo a crescer. A incredulidade de que isso seja sequer possível ou desejável também.

Em si mesma, a pergunta é cruel, porque se assemelha a privação de algo de essencial à vida. É como se perguntasse: alguém é capaz de prescindir de comer ou beber uma semana? Por isso, tal questionamento começa por fazer sentido apenas como forma de desencadear a conversa. A muitos aconteceu já perder o rasto ao telemóvel ou ele avariar-se, levando à abstinência de conetividade pelo menos umas horas ou (escassos) dias. Mas todos são unânimes na síndrome de carência e consequente desatino. “É como se me tivesse perdido!”

Em vários pontos do país se está a viver desde o dia 3, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a iniciativa “Sete dias com os media”. O objectivo desta operação nacional, glosada localmente num sem-número de realizações, é reflectir e agir sobre o lugar dos meios de informação e de comunicação na vida quotidiana e na sociedade. Não é, pois, uma iniciativa contra os media nem a favor deles. Cabem nela, por isso, projectos e exercícios orientados para a interrogação de atitudes, comportamentos e rotinas que podem até não ser de excessiva dependência, mas que são, pelo menos, excessivas no tempo que consomem. É aceitar o desafio de, de vez em quando, mudar, variar, fazer algo de que gostamos e também achamos importante. E que a força dos hábitos instalados não deixa acontecer.

Não vale muito a pena flagelar-se com meros exercícios de privação. É bom que haja uma experiência gratificante como alternativa: ir ao cinema, em vez de ficar a ver televisão; ir passear a um sítio bonito, onde se oiça o silêncio, em vez de ficar a “dar ao dedo”; encontrar-se “em direto e ao vivo”, em vez de teclar para quem mora a dois ou três passos.

Encontrei alguns jovens que decidiram fazer isso: fartos de “mensagens”, decidiram combinar encontros – num fim de tarde pára o ‘messenger’ e venha a conversa. Para fazer diferente. Para mudar a vida. Para afrontar a pressão das operadoras que nos querem “por tempo ilimitado”. Com pequenos passos, buscar caminhos que possam dar mais sabor à vida.

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  • MASQUEGRACINHA
    07 mai, 2018 TERRADOMEIO 17:02
    Eu até estava capaz de sugerir que a rapaziada "conectada" a tempo inteiro tivesse, tipo, simulacros de "desconexão" na escola, como os de incêndio, sismo, bomba, ataque terrorista, etc. (se houvesse tais simulacros, mas enfim, dá para perceber a ideia, não dá?), ou, tipo, as aulas de natação, que a malta percebe-lhes melhor a utilidade, que é não fazerem figuras tristes na praia e na piscina à frente dos bros. Ou, tipo, assistência (obrigatória, a contar para nota) de um (ou mais, que há muitos) daqueles filmes onde os protagonistas, apesar de super-techs, só se safam porque dois deles sabem morse... têm que ser dois, que é um para emitir as pancadinhas com o rabo de um garfo a bater num cano, e outro para as descodificar. Mas acho que não vale a pena sugerir nada: daqui a poucos anos, anilham-nos com um tele-chip multimédia logo na incubadora, e começam a nascer, primeiro, sem cordas vocais, depois com olhos mutifacetados como as moscas, vai-se o inútil, aprimora-se o útil, que a seleção natural não brinca em serviço, embora pareça ter sentido de humor. Acho que eu e o articulista ainda por cá vamos andar e ver essas maravilhas... Mas não o tempo suficiente para gozarmos em pleno as delícias da ausência de ruído. E disso é que, tipo, temos pena.