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Opinião de Luís António Santos
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​A liberdade de imprensa defende-se todos os dias porque é importante todos os dias

03 mai, 2018 • Opinião de Luís António Santos


Essa ‘servidão que se alimenta dos imprevistos da vida’ – como a descreveu Garcia Marquez – só existe e faz sentido com base num compromisso trabalhado em permanência por todos.

Tem quase tantos anos como eu um poema do O’Neill que diz, a dado passo: “Notícia é devoração! / Aí vai ela pela goela / que há-de engolir tudo e todos! / Aí vai ela, lá foi ela! / Nem trabalho de moela / retém notícia...”.

Num texto com quase 50 anos já lá está a voragem da velocidade, já lá está a pouca atenção que habitualmente damos à informação e já lá está – ainda que apenas como sugestão – a ideia de que todo este entorno sempre foi muito frágil.

Apesar do aviso do poeta, habituámo-nos – numa Europa com regimes tendencialmente democráticos nas últimas décadas – a tomar por adquirida uma estabilidade do sistema e dos seus mecanismos de controle. Habituámo-nos a presumir que os média, independentemente do nosso apoio, lá estariam sempre para ‘olhar por nós’ ou, pior ainda, tornámo-nos tão complacentes que os descartámos como supérfluos. Pois então, se tudo funciona mais ou menos bem e se, nos últimos 20 anos, tivemos acesso a cada vez mais plataformas de produção e disseminação de conteúdos, para que podemos querer ainda o que nos oferece uma atividade profissional tão exposta a pressões, tão marcada por falhas e por omissões?

Parte substancial do erro em que, nos dias de hoje, incorremos com frequência ao falar dos média tem a ver, precisamente, com esta falsa percepção de conforto. Ela exprime-se de formas muito diversas, às vezes com repulsa pelo Jornalismo, às vezes precisamente com o seu contrário – uma exigência suprema. Em linguagem de rede social, dir-se-ia que desenvolvemos um daqueles relacionamentos ‘it’s complicated’ – nuns dias os média não servem para nada e, noutros dias, não fazem o que deviam por obrigação.

Como em todas as relações complicadas, o território está longe de ser sadio e é nele que fermenta, por exemplo, o exuberante espanto com que quase todos enfrentámos notícias recentes sobre manipulação do sistema mediático em países na UE e fora dela ou sobre a existência de fluxos de conteúdos falsos nas redes digitais.

Ora, não há nada de novo no apetite da política pelo controle da informação e não há nada de novo na criação de mecanismos eficientes para fazer chegar mensagens a destinatários específicos (sejam elas verdadeiras ou falsas). Novo, no presente, é o facto de que parte desta produção de discurso já não se faz com a intermediação do jornalismo e novo também é o facto de que gigantescas empresas transnacionais assumiram um papel de relevo. Mas tudo isto aconteceu na frente dos nossos olhos e com a complacência de governos nacionais e supra-nacionais. Curiosamente, ou talvez não, alguns desses governos – alimentados pelo nosso ‘espanto’ – cavalgam agora cruzadas contra as ‘fake news’ que, para além de hipócritas, incorporam claramente sementes de uma vontade de controlar o discurso público, com implicações para a Liberdade de Expressão e para a Liberdade de Imprensa (na Malásia foi, há dias, condenada a primeira pessoa ao abrigo da ‘Lei Contra as Notícias Falsas’ – uma ferramenta que, entre outras coisas, permite ao governo declarar ‘falso’ tudo o que não tenha sido ‘confirmado pelas autoridades’).

Sendo certo que temos hoje todos mais formas de aceder a informação que consideramos relevante, que temos também mais meios para interagir diretamente uns com outros e que isso permite a aparição de mais vozes ditas marginais, não é menos certo que esse acesso continua a ser limitado para um número substancial de pessoas, que governos e grandes empresas dispõem de mais meios para influenciar, vigiar e controlar as suas audiências e que isso, em última análise, constitui uma ameaça séria ao funcionamento dos processos democráticos.

Longe de ser um adquirido estável, a liberdade de imprensa necessita, por isso, de ser garantida todos os dias, porque todos os dias algo novo a põe em risco. E, nesse compromisso, não podem envolver-se apenas os jornalistas ou uma mão cheia de fiéis leitores/ouvintes/telespectadores. Essa ‘servidão que se alimenta dos imprevistos da vida’ – como a descreveu Garcia Marquez – só existe e faz sentido com base num compromisso trabalhado em permanência por todos.

O tempo de fazer de conta que o futuro do Jornalismo não tem nada a ver connosco já passou. O tempo de fazer de conta que a Democracia plural e participada estará cá para sempre, com ou sem Jornalismo, já se esgotou também. Está na hora de despertar.

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  • MASQUEGRACINHA
    03 mai, 2018 TERRADOMEIO 17:09
    Muito boa análise. De facto, os novos meios vieram apenas aprofundar e alargar (muito mais) os vícios e manipulações da informação. Antigamente, quem comprava um jornal, também comprava uma determinada agenda, com umas lambuzadelas de pretensa pluralidade dadas, sobretudo, por alguns artigos de opinião publicados em dias certos, por opinadores também eles tão certos que se diria residentes. E cada um comprava o jornal mais próximo da sua própria agenda, não era? Agora, via digital, podemos aceder a agendas diversas, quer dizer, a diferentes jornais - e, vá-se lá saber porquê, os tais opinadores para-pluralidade-ver praticamente desapareceram... Ou seja: o jornal digital é mais homogéneo e assumido na sua agenda. Veja-se os que são apenas digitais: das notícias às opiniões, é tudo a remar para o mesmo lado, sem rodriguinhos nem subterfúgios. São todos "Avante!", sem pruridos de pluralidades, nem tretas do politicamente correcto. São pura agenda, e com muito orgulho. Bom, pelo menos dizem ao que vêm, ao contrário da velha imprensa sempre muito ciosa da sua "pluralidade" e "independência" que enganaram muitos durante muito tempo. Ficou, digamos, um trauma. Agora, não tenho dúvida nenhuma de que, mais ainda nos tempos actuais, a informação investigada, validada e prestada pelo Jornalismo (com J) é o único garante da Democracia que nos resta - porque é o único que vai funcionando. Apesar do que atrás disse, seria tremenda estupidez, cegueira ou ingratidão não o reconhecer.