Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Falta de manutenção

03 mai, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A degradação do pavilhão de Portugal na Expo 98 durante quase vinte anos é um exemplo triste do nosso desinteresse pela manutenção do que se faz.

A Renascença tem dedicado uma série de reportagens aos vinte anos da Expo 98, da autoria das jornalistas Dina Soares e Joana Bourgard. Uma dessas reportagens, há dias transmitida, é sobre o Pavilhão de Portugal. A Expo 98 trouxe muitas coisas positivas, como a reabilitação de uma zona da cidade que estava degradada. Mas a história do Pavilhão de Portugal não é brilhante, pelo abandono a que durante muito tempo esteve votado este edifício concebido por Siza Vieira, com a sua célebre pala, que “fez história na arquitetura portuguesa e mundial”.

Foram inúmeras as hipóteses de utilização daquele edifício, mas nenhuma se concretizou a tempo de evitar a sua progressiva degradação, por falta de uso. Durante algum tempo, curto, o ex-Pavilhão de Portugal foi alugado para reuniões e jantares de empresas. Depois, nem isso.

Finalmente, em 2015 o edifício foi entregue à Universidade de Lisboa, que ali irá realizar eventos científicos e exposições. Mas, dados os estragos que a longa falta de uso do edifício causou, ele vai ser restaurado – felizmente sob a orientação de Siza Vieira. Tudo isso custa dinheiro, que se soma ao desperdício de quase vinte anos sem aproveitamento útil de uma obra justamente aplaudida.

Um dos traços que caracterizam o subdesenvolvimento das sociedades atrasadas é a escassa importância atribuída à manutenção. O antigo Pavilhão de Portugal é um exemplo flagrante. Outros casos se podem apontar, como o estado lamentável em que se encontram muitas linhas de caminho de ferro (apesar da fortuna gasta, largamente em vão, na pretensa modernização da via Lisboa-Porto) ou os problemas na ponte 25 de Abril. E a extensa degradação habitacional apenas foi travada com o “boom” do turismo e a multiplicação dos chamados “alojamentos locais” (que também têm, como se sabe, o seu lado negativo).

Os sucessivos responsáveis governativos vão empurrando os problemas de manutenção com a barriga – e, ao fim e ao cabo, o contribuinte acaba por pagar uma fatura bem mais pesada por causa desses adiamentos.

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