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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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As Coreias e a paz

24 abr, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


As iniciativas diplomáticas em curso nas Coreias levantam esperanças, mas envolvem riscos sérios.

Trump acolheu com entusiasmo a intenção do Kim Jong Un de suspender os testes nucleares e o lançamento de mísseis. Dias depois, o Presidente americano moderou o otimismo. Talvez alguém lhe tenha lembrado que o pai de Kim subscrevera em 1985 o Tratado de Não Proliferação Nuclear (que a Coreia do Norte abandonou em 2003) e em 1994 estabelecera um acordo com os EUA, segundo o qual os americanos dariam apoio à Coreia do Norte em troca de este país travar o seu programa nuclear. Nunca a Coreia do Norte cumpriu tal acordo.

Agora, Kim Jong Un consegue algo que o pai e o avô não lograram obter: um encontro com o Presidente dos EUA, que assim implicitamente reconhecem a Coreia do Norte como potência nuclear.

Segundo fonte da Coreia do Sul, Kim estaria disponível não só para “desnuclearizar” como para aceitar a forte presença militar americana na Coreia do Sul. Não é verosímil, pois um dos objetivos centrais da China é reduzir essa presença – ora na cimeira Trump-Kim nada se fará sem luz verde de Pequim.

E “desnuclearizar” pode simplesmente significar que a Coreia do Norte não fará mais testes, porque já realizou os necessários, e não irá eliminar o seu arsenal nuclear. Parece curto para Washington.

Entretanto, na próxima sexta-feira, os líderes das duas Coreias encontram-se. Talvez sejam aí dados passos para um Tratado de Paz que substitua o simples armistício que pôs fim à guerra da Coreia (1950-1953).

O Presidente da Coreia do Sul é um entusiasta do diálogo com a Coreia do Norte e tem servido de canal de comunicação entre Kim e os EUA. As autoridades sul-coreanas suspenderam as emissões de propaganda contra a Coreia do Norte junto à fronteira, quatro dias antes da reunião histórica entre os líderes dos dois países.

O Japão encara com ceticismo a cimeira Kim-Trump, a realizar em maio ou Junho. Existe o risco de todas estas manobras diplomáticas levarem à divisão entre os aliados dos EUA na região, outro grande objetivo da China.

Esperemos que Trump esteja consciente dos perigos que corre. E não sacrifique a segurança de longo prazo a um aparente sucesso imediato nas suas conversas com Kim.

Comentários
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  • António Costa
    25 abr, 2018 Cacém 12:37
    A Revolução Chinesa não foi obra do acaso ou uma coincidência. É muito mais fácil decorar regras sem entender os verdadeiros princípios. Depois a culpa é do "acaso". A China influenciou de uma maneira sem precedentes a cultura ocidental. Só que não se fala nisso. Existe uma enorme fratura entre o "antigo testamento" e o "novo testamento". As ideias do "novo testamento" levaram a Civilização Europeia ao que ela é nos dias de hoje. As ideias do "novo testamento" levaram ao aparecimento da igualdade de todos os homens perante Deus. O "escolhido", o "infalível", base das ideologias totalitárias foi posto em causa. As ideias da Revolução Francesa, "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" são filhas do "Novo Testamento". A China acolheu as "ideias de esquerda" que serviram de base à sua Revolução, por uma razão. São suas "netas". Essas ideias de esquerda, igualitárias não eram estranhas à China. As perguntas, o questionar, o bom senso de Buda vinham da Cultura Chinesa. Os Ideais que a China recebeu não eram "estrangeiros", estranhos à China, eram só e nada menos netos das Ideias que tinham nascido há muito tempo na própria China. Esperemos que o "Bom Senso" prevaleça e que a China tenha orgulho nas ideias da Liberdade, que ajudou a criar. E esperemos que o mundo não caia nos mesmos erros em que a China caiu, há 1 000 anos atrás.