Opinião de Manuel Pinto
A+ / A-
Opinião de Manuel Pinto

​YouTube, Instagram, Facebook

23 abr, 2018 • Opinião de Manuel Pinto


O Facebook ou o Instagram são bem mais do que brinquedos que nos ofereceram para realizar a promessa de pôr de pé uma rede de comunicação à escala do mundo.

Mark Elliot Zuckerberg está à porta dos 34 anos e é hoje uma das pessoas mais ricas do mundo. Acumulou uma fortuna bilionária através de uma máquina de fazer dinheiro, por ele concebida e criada em 2004, chamada Facebook, e controla várias outras empresas de grande impacto na internet, como é o caso do Instagram ou do Whatsapp.

Até tempos recentes, Zuckerberg fazia questão de se distanciar dos problemas suscitados pelo Facebook, nomeadamente quanto à natureza de alguns dos seus conteúdos e à privacidade dos dados das muitas centenas de milhões de utilizadores de todo o mundo, dizendo que o negócio que criou assentava não na edição de conteúdos mas numa infra-estrutura tecnológica. Quando recentemente teve de comparecer em comissões do Senado do seu país, por causa do escândalo da empresa Cambridge Analytics, acabou por reconhecer que lhe era difícil continuar a defender tal posição de alegada neutralidade, tantos eram, e são, os problemas gerados nos anos mais recentes.

É evidente hoje que o Facebook – e o mesmo se poderia dizer do Twitter ou do Youtube (que pertence à Google) – albergam e difundem o melhor e o pior, porque, como dizia recentemente na Argentina o sociólogo Manuel Castells, “as redes são a expressão do que somos e a espécie humana não é necessariamente boa”.

A meu ver, porém, não basta repetir o que o senso comum diz habitualmente das tecnologias: que elas, em si mesmas, “não são boas nem más”; e que “o uso que delas fazemos é que é determinante”. É verdade que muito depende do utilizador e do uso. Mas é preciso não ser ingénuo relativamente à natureza e finalidades das redes sociais. O Facebook ou o Instagram são bem mais do que brinquedos que nos ofereceram para realizar a promessa de pôr de pé uma rede de comunicação à escala do mundo. E não é só pelas utilizações fraudulentas e mal-intencionadas de que vamos tendo conhecimento. Somos também nós que fazemos essas redes, em particular quando nos desinteressamos de conhecer a sua lógica de funcionamento e adotamos, no seu uso, ‘comportamentos de manada’.

Como ficamos a saber, nem mesmo aqueles que se pretendem manter de fora das redes sociais deixam necessariamente de ser afectados por elas. A desconexão total e permanente é quase impensável. Por conseguinte, vivendo junto ao mar, será mais inteligente aprender a nadar. Mas é preciso mesmo aprender e trabalhar para isso. O uso fácil e barato cria a ilusão de que somos mestres e senhores. E isso é burrice.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • MASQUEGRACINHA
    23 abr, 2018 TERRADOMEIO 17:10
    Se a larguíssima maioria das pessoas não tivesse o que chama "comportamento de manada" e não padecesse de insanável "burrice", para lá de não ser "necessariamente boa", não se deixaria manipular, vigarizar e explorar como deixa e sempre deixou. Note-se que eu, que nunca me registei em nenhuma rede social e até sobrevivo sem nunca ter tido smartphone (porque posso, e porque as tristes dependências dos outros me fazem temer as minhas), não me excluo dessas "manadas" e "burrices", apesar de até saber nadar alguma coisa. Mas não posso deixar de questionar o tipo de atitude expresso neste artigo, que parece indicar que a culpa principal pelo verdadeiro descontrolo em que se vive cabe aos utilizadores - portanto, ao gado burro. Afinal em que ficamos? É que se somos gado burro (e somos), não cabe ao poder político e judicial, que pagamos e a que aturamos as manias de superioridade, proteger-nos desses predadores inteligentes que nos manipulam, mentem, burlam e exploram? Onde está a legislação, a regulação, que não nos obrigue a viver em permanente burrice, ou paranóia e prevenção? Não está em lado nenhum, porque o poder financeiro é o único que existe de facto - e o seu objectivo é mungir o tal gado, que se quer, obviamente, o mais embrutecido possível. Como bem diz, nem a auto-exclusão das redes sociais nos protege dos abusos, a começar por nem nos aceitarem os currículos de emprego sem um qualquer "perfil" - portanto, onde acaba o comportamento de manada e começa a obrigação?