Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A era da dívida não acabou

20 abr, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O crédito ao consumo está a crescer perigosamente. Recomenda-se mais prudência, a quem pede e a quem concede empréstimos.

Soube-se esta semana que o crédito bancário ao consumo continua em crescimento acelerado. Nos dois primeiros meses deste ano esse crédito foi 18% superior ao período homólogo de 2017. E é mais do dobro do crédito ao consumo concedido em Janeiro-Fevereiro de 2013. Os empréstimos para compra de automóvel subiram 8% no início do ano corrente, em relação ao período homólogo de 2017. Mas não subiram os empréstimos para educação, saúde, energias renováveis e locação de equipamentos.

Apesar dos avisos do Banco de Portugal e de instituições como a DECO, o consumo merece a preferência de quem pede emprestado e de quem empresta, ao passo que o investimento empresarial não revela dinamismo. Sacrificamos o futuro em benefício do presente.

Claro que a economia portuguesa está a crescer, o que é bom. Mas todas as previsões apontam para um abrandamento significativo desse crescimento nos anos seguintes a 2018. E voltaremos a distanciar-nos das médias europeias. Daí a prudência do ministro Centeno, agora. Negativa foi a imprudência de Centeno não ter travado a propaganda governamental de que tínhamos “virado a página da austeridade”. Ainda na segunda-feira passada, em entrevista ao “Público”, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, elogiou enfaticamente a proeza do seu governo de ter acelerado o crescimento da economia sem “políticas austeritárias”. No debate quinzenal desta quinta-feira, na Assembleia da República, o primeiro-ministro veio de novo com a bandeira do fim da austeridade. Qualquer dia acredita mesmo naquilo que diz - enche-lhe o “ego”, mas não é bom para o país.

Muita gente prefere ouvir coisas agradáveis, embora pouco verdadeiras. Assim o português convence-se de que Portugal passou a ser um país rico. Então o português compra como se fosse rico; se não tem dinheiro, pede emprestado. Quando chega a hora de pagar os empréstimos, é o drama para muitas famílias. Drama que se repete. Não aprendemos nada.

Não repararam que temos a maior carga fiscal de sempre. E que no próximo ano pode haver mais subidas de impostos, nomeadamente nos indiretos, socialmente inaceitáveis (tanto paga o rico como o pobre). Entretanto, por falta de manutenção e investimento público, o Serviço Nacional de Saúde piora a olhos vistos. E noutros serviços públicos, das prisões às forças armadas, as coisas não são muito melhores.

Não será grande consolação saber que não estamos isolados na ilusão. O FMI tocou há dias as campainhas de alarme, porque a massa global emprestada no mundo é excessiva. A divida global é superior ao dobro do valor dos bens e serviços produzidos. E o conjunto dos sectores público e privado está agora mais endividado do que no auge da crise financeira, há uma década. Não há meio de sairmos da era da dívida.

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