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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Reformas no capitalismo

18 abr, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O microcrédito mostrou que os pobres pagam melhor do que os ricos os empréstimos que obtêm. É o “milagre” do microcrédito.

Quando se deu o colapso do comunismo soviético, a vitória do capitalismo subiu à cabeça de muita gente. Só que desembocou na crise financeira iniciada nos EUA em 2007, devida a grave irresponsabilidade na concessão de crédito a quem o não poderia pagar, uma vez invertida a subida do preço da habitação. Antes haviam-se registado fraudes sérias em empresas muito prestigiadas, como a Enron, que desapareceu.

A tendência para o capitalismo selvagem já não tinha, a travá-la, uma alternativa: o chamado “socialismo real” soviético. Por isso a aspiração a uma certa humanização do sistema capitalista deixou de apostar em mudanças radicais, mas em pequenos progressos. É uma ambição modesta, mas realista.

Novidades como a banca ética, o comércio justo e sobretudo o microcrédito são sementes que têm dado algum fruto, traduzido nomeadamente no crescimento do chamado sector social. A grande novidade do microcrédito foi mostrar, contra o que era a convicção geral, que os pobres cumprem mais pontualmente do que os ricos os encargos dos empréstimos.

Entre nós, o microcrédito deu origem, há cerca de vinte anos, ao aparecimento da Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC), constituída essencialmente por voluntários. A ANDC já apoiou mais de 2 200 microempresas ou pequenos negócios, envolvendo um volume global de crédito concedido de 15 milhões de euros.

Como se lê num excelente estudo, apoiado pela Gulbenkian, e que hoje será a base de um Encontro que a ANDC promove no ISEG, em Lisboa (estudo ao qual a Renascença já várias vezes se referiu), muito se tem aprendido ao longo destes anos. Por exemplo, o microcrédito em situação de incumprimento ainda chega a 16%; mas têm vindo a diminuir os atrasos nos pagamentos dos empréstimos. Tem sido essencial o acompanhamento por técnicos recrutados pela ANDC de negócios financiados, ajudando os por vezes pouco experientes gestores desses pequenos empreendimentos.

O futuro do microcrédito depende, em larga medida, de dois fatores: a continuação do apoio do Estado, até agora concedido através do Instituto do Emprego e Formação Profissional, e o desenvolvimento da cooperação de um conjunto de entidades bancárias, que concedem os empréstimos. Importa, nomeadamente, que os bancos mantenham o espírito social do microcrédito. A economia social não dispensa o lucro (condição de sobrevivência) nem o rigor financeiro – mas estes não são objetivos finais, apenas instrumentais.

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