Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Renegociar a dívida?

12 abr, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Reestruturar a dívida pública seria um mau negócio. Colocar essa hipótese não ajuda à confiança dos mercados e aos juros baixos.

Com os êxitos obtidos na redução do défice orçamental, apareceram naturalmente propostas para uma redução mais lenta do que a indicada pelas regras da moeda única. E voltou a falar-se em reestruturar a dívida pública, renegociando-a amigavelmente com os credores.

Mário Centeno chamou há dias a atenção para a forte decida na despesa com juros da dívida, resultante do cumprimento (às vezes, até mais do que o cumprimento) das metas acordadas com Bruxelas e consequente descida dos juros. Regressou, assim, a confiança dos credores, que estava de rastos com a quase falência de 2011. Ora uma reestruturação da dívida, mesmo em termos não hostis, abalaria essa confiança conquistada com muitas dificuldades e por isso subiriam os seus juros, sendo duvidoso que tal compensasse o abatimento na dívida.

Não compensou na Grécia, onde duas reestruturações não evitaram condições altamente penosas para concluir, por fim, o programa de assistência. E por cá três ex-ministros das Finanças, do PS e do PSD, opuseram-se publicamente à hipótese de Portugal renegociar a sua dívida pública – Luís Campos e Cunha, Teixeira dos Santos e Maria Luís Albuquerque.


"Era um mau negócio", disse Campos e Cunha, defendendo que a reestruturação seria "eticamente condenável e financeiramente desastrosa". Teixeira dos Santos foi de opinião de que a dívida deve ser gerida "sem se entrar em aventuras que seriam dolorosas para o país, como seria a reestruturação". Maria Luís Albuquerque, do PSD, concordou com os dois ex-ministros de governos socialistas, rejeitando em absoluto a reestruturação. E acrescentou que a opinião dos mercados é o que importa. "Não há números mágicos para a sustentabilidade. Enquanto os credores acreditarem que podemos pagar, [a dívida] é sustentável. Se não acreditarem, ela deixa de ser”. Ou seja, quanto menos se falar na hipótese de reestruturação, melhor.

O ministro Centeno tem razão ao não admitir a renegociação da dívida. Mas foi pena que essa sua posição não tenha sido claramente expressa mais cedo, bem como que Centeno não haja contrariado a propaganda do “fim da austeridade”, que criou ilusões nocivas em muita gente.

Comentários
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  • Justus
    13 abr, 2018 Espinho 19:29
    Sarsfield Cabral seguramente não sabe o que é reestruturar ou renegociar uma dívida. Por isso, não explica nem desenvolve uma e outra coisa, limitando-se a colocar entre aspas as palavras "reestruturar" e "renegociar". Aliás, a ignorância não é só dele, pois há muita gente que fala em renegociar ou reestruturar pensando que isso não é mais que "perdoar" parte da dívida. Ora uma coisa é perdoar outra bem diferente é reestruturar ou renegociar. Reestruturar e negociar a dívida, está o governo cheio de o fazer, fá-lo constantemente, utilizando diversos mecanismos. Por isso, a nossa dívida tem vindo a diminuir, assim como o défice. Só os ignorantes, que pensem que "reestruturar" é "perdoar", é que não se apercebem.
  • Carlos Fróis
    12 abr, 2018 Lisboa 14:28
    Continuam as suas alusões ao governo de António Costa. Estas fazem lembrar as mesmas alusões de José Gomes Ferreira, também este um servo dos senhores da comunicação social e dos grandes patrões que querem negociar com os trabalhadores a preços irrisórios. Ao que parece e consigo, o estado de beatitude apenas ocorreu no tempo de Pedro Passos Coelho e Maria Luís de Albuquerque, em que a austeridade era a norma e o capitalismo selvagem, um rumo fixo para a nossa sociedade. Como este governo não satisfaz os seus interesses, todos os dias deixa um texto ou uma opinião negativa em relação ao mesmo. Numa atitude servil em relação aos donos do capital, o senhor ainda crê que ficará bem visto. Na verdade, o senhor Sarsfield Cabral é apenas um mero servo dos senhores do grande capital. O senhor presta-se aos serviços que lhe encomendam fazer, diariamente, aqui neste boletim de tamanho ridículo.