Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

Militares e políticos

10 abr, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


As trincheiras da I Guerra Mundial viraram militares contra políticos. Hoje, importa dotar os militares no estrangeiro do equipamento adequado às suas missões.

O Presidente da República e o primeiro-ministro participaram, em França, nas comemorações do centenário da trágica batalha de La Lys, na I Guerra Mundial. A deslocação justifica-se pelo grande número de imigrantes e luso-descendentes que vivem naquele país.

Daquela batalha importa sobretudo retirar as lições do desastre. O partido de Afonso Costa forçou a participação portuguesa no conflito em território europeu em 2017 (no território africano os embates com as tropas alemãs já antes haviam começado e foram sangrentos).

A ideia era que, entrando na guerra, haveria no país uma baixa das tensões políticas e sociais internas, prevalecendo a união contra o inimigo. Mas não se encarou a realidade: os militares portugueses não estavam, então, preparados para uma guerra como aquela.

Os britânicos estavam conscientes de que o exército português pouco ou nada contribuiria para o esforço de guerra contra os alemães. Por isso retardaram o mais possível a participação militar portuguesa. Acabaram por ceder, mas o pessimismo britânico confirmou-se.

François Furet, um grande historiador francês que morreu há 21 anos, defendia que os totalitarismos e as violências que se seguiram à I Guerra Mundial tiveram a sua raiz, em grande parte, no horror de quatro anos de vida e morte dos soldados nas trincheiras. Muitos militares sentiam-se ali abandonados pelos políticos, desacreditaram na democracia liberal e passaram a encarar a violência como arma legítima de combate político em tempo de paz.

No caso dos militares portugueses enviados para a Flandres, essa reação foi evidente, até porque muitos deles partiam para a frente de batalha na Europa equipados como se fossem combater em África.

A humilhação de La Lys, onde as tropas portuguesas eram comandadas pelo general Gomes da Costa, levaram ao 28 de maio de 1926, revolta chefiada por este general e que conduziu a quase meio século sem democracia.

Hoje, militares portugueses estão presentes enquanto forças de paz em vários conflitos no estrangeiro. E a sua participação é geralmente elogiada pelos seus pares de outros países, prestigiando Portugal.

É o caso da República Centro-Africana, onde sofreram ataques recentes, felizmente sem consequências físicas graves. Ainda antes desses ataques, o Presidente Marcelo visitou o contingente português naquele país africano, onde a mortandade é assustadora. Fez bem, até porque nem sempre as forças militares portuguesas destacadas para este tipo de operações dispõem de todo o equipamento necessário às suas missões. Um problema que os políticos – e todos os portugueses - devem encarar a sério.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • António Costa
    11 abr, 2018 Cacém 07:06
    Só para terminar. Os povos, as "sociedades" que evoluíram para "sistemas totalitários", foram as sociedades cujas pessoas tinham sido "educadas/criadas" em sistemas autoritários (exemplo da Alemanha). Na I Grande Guerra (foi uma guerra mundial!) a França e a Inglaterra não evoluíram para sistemas totalitários. Acontece que os franceses, foram dos que mais sofreram com a I Grande Guerra (dos 9 milhões de soldados mobilizados, 3 milhões ficaram feridos e mais de 1,2 milhões morreram). O sofrimento terrível que foi a I Grande Guerra, não explica a "deriva totalitária" que se seguiu. O local onde as pessoas foram criadas e educadas, SIM! Exatamente como nos dias de hoje, a História repete-se!
  • António Costa
    10 abr, 2018 Cacém 20:54
    Ao "regressar" ao inicio do Séc. XX, teremos de "entrar" na mentalidade da época. A I Grande Guerra foi um embate entre grandes impérios. Um embate entre impérios e não um conflito entre regimes "democráticos" e "totalitários". A Europa já em si sede de impérios, controlava extensos impérios coloniais em África e na Ásia. Os soldados eram extremamente maltratados, apenas "carne para canhão" e o estamos muito longe de qualquer carta de direitos da pessoa humana. A I Guerra foi uma conflito, uma guerra entre impérios e não uma luta sobre "direitos" ou "opções sociais". A seguir à I Guerra as pessoas estavam fartas de guerras, fartas de morrer por sociedades de reis e imperadores. Sociedades em que a classe dominante "tinha tudo", e a restante população muito pouco. A seguir ao final da I Grande Guerra, revoluções eclodiram um pouco por todo o lado, para pôr fim a este estado de coisas. As "democracias", o "voto universal", antes da I Guerra, ainda estava tudo num estado muito" básico".
  • João Lopes
    10 abr, 2018 Lisboa 13:08
    Ao analisar este mau texto de Sarsfield Cabral, a presença dos portugueses na I Guerra Mundial é quase uma caricatura, com muito pouco a dizer. Podia ter referido alguma obra literária de interesse, quanto ao tema (como os «Diários» de João Chagas) ou ter escrito mais qualquer coisa acerca do governo de Sidónio Pais e o modo como os soldados portugueses republicanos foram presos, ao voltarem da guerra (como Jaime Cortesão). O governo de Sidónio (militarista e germanófilo) desligou-se da guerra. De acordo com João Chagas (embaixador português em Paris, na altura), Portugal perdeu uma boa hipótese de se ligar mais à Europa. Com Sidónio Pais, o país virou-se para dentro. Francisco Sarsfield Cabral escreve pouco e analisa mal o tema.