Opinião de José Miguel Sardica
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Opinião de José Miguel Sardica

​La Lys: história e memória

04 abr, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


A 9 de abril de 1918, o exército português averbou a mais catastrófica e traumática derrota militar do século XX.

Como se noticiam e racionalizam, junto da retaguarda civil e da opinião pública, as perdas humanas sofridas numa guerra? A pergunta e o desafio são tão atuais hoje, num mundo de morticínios televisionados à hora do jantar, como o eram há cem anos, no Portugal periférico, pobre e analfabeto que o governo afonsista da I República lançou na aventura da participação na I Guerra Mundial.

A 9 de abril de 1918, o exército português averbou a mais catastrófica e traumática derrota militar do século XX, na tristemente célebre batalha de La Lys, o equivalente contemporâneo do desastre de Alcácer-Quibir. Flanqueada pelos britânicos, mas exposta à ofensiva desesperada dos alemães, a 2.ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (o CEP), com uns 700 oficiais e uns 20.000 sargentos e praças, guardava uma linha de 12 km junto do rio La Lys, na Flandres. Para o alto-comando germânico, chegara a hora do tudo ou nada – fechada a frente oriental da Guerra, com a retirada russa do conflito, e antes que os contingentes norte-americanos se juntassem, na frente ocidental, às forças aliadas. Nesse infausto 9 de abril de 1918, o CEP perdeu c. 7.200 efetivos, entre mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos sob a tempestade de metralha alemã – quase metade do total de baixas (c. 14.500 efetivos) de toda a campanha portuguesa na Flandres em 1917-18.

Num país em clima apocalíptico, por entre a terrível crise económica e social da Guerra, os ecos messiânicos e redentoristas de Fátima e uma Europa em ruínas, a chacina de La Lys significou a desautorização trágica e sangrenta da política belicista dos republicanos de Afonso Costa. O “milagre de Tancos”, tão propagandeado pelos “guerristas” em 1916, não conseguiu evitar o desastre de 1918, ocorrido já no consulado de Sidónio Pais, quando este procurava repensar o dispositivo português enviado para a Flandres.

Eis como a “Ilustração Portuguesa”, a famosa revista semanal do muito influente (e campeão de vendas) jornal “O Século” noticiou a catástrofe aos seus leitores, no n.º de 22 de abril de 1918: “Há revezes mais gloriosos que vitórias. Um reduzido número de bravos, inflamados do amor de uma santa causa, arcando com a arremetida brutal de ondas temerosas de soldados refeitos de forças e munidos das mais aperfeiçoadas e também das mais perfeitas armas de guerra, ondas que se sucedem automaticamente, à medida que a metralha as vai pulverizando, num estupendo sacrifício de vidas, até que uma abra brecha, como fatalmente acaba por abrir – defende-se, oferece uma resistência louca, deixa-se matar, hasteando sempre alto a bandeira querida da pátria enquanto se lhe não esvai o último alento. Salvar uma honra é ainda uma grande, senão a maior das vitórias! Foi o que fizeram os portugueses […] Provaram brilhantemente que nunca trepidamos em acudir aonde nos chama o dever, que somos capazes de duros sacrifícios, quando eles se nos impõem em nome da liberdade e da civilização […] Todo o país partilha, sem dúvida, de tanta dor e de tanta angústia; e quando estas não tenham já a adormentá-las uma esperança sequer, o espírito deve erguer-se do seu abatimento à consoladora reflexão da grandeza de ânimo, da nobre altivez de raça, do acendrado patriotismo com que, desde o humilde soldado ao mais graduado oficial, todos se submeteram a tão cruento e memorável holocausto, cobrindo-se de glória e ao seu país”.

A retórica era grandiloquente, o consolo era o do dever cumprido e a moral era a do martírio. Para a opinião pública, todavia, o patriotismo não recuperava vidas. Não só por causa da I Guerra, mas muito devido a esse belicismo político imprudente, culminado em La Lys, há cem anos, a I República foi a história de um fracasso. O regime que veio depois também não deixou saudades.

Comentários
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  • MASQUEGRACINHA
    04 abr, 2018 TERRADOMEIO 16:01
    De vez em quando, releio "João Ninguém, Soldado da Grande Guerra - Impressões do C.E.P. 1918-1919", do Capitão Menezes Ferreira, que consegue sempre comover-me (as agonias da guerra, batalha de La Lys), mas também fazer-me sorrir. São deliciosas as descrições das diferentes soldadescas, portuguesa, inglesa, francesa, alemã... politicamente incorrectas, à luz actual, mas com uma irónica perenidade. É um livro, para mais ilustrado, que, pela forma e pelo conteúdo, merecia reedição, até pelo testemunho directo e memória singular que nos proporciona.
  • António Costa
    04 abr, 2018 Cacém 13:47
    Bem, umas notas. Há cem anos, a Alemanha tinha feito as pazes a leste. Era para a Alemanha necessário "resolver" o problema a Ocidente. Onde? a frente ocidental era mais "frágil", segundo os alemães na zona da frente defendida pelos portugueses. E o que fizeram os "nossos amigos" alemães? As forças de choque alemãs, a "elite das elites" foi lançada contra a "frente portuguesa". A frente foi de fato rompida mas os alemães, na época não conseguiram "acompanhar" o avanço da linha da frente que acabou por ficar sem abastecimentos ( lições que tiveram em conta no inicio da II Grande Guerra). Os alemães tiveram também perdas consideráveis, em homens, ainda por cima forças de elite que não podiam ser repostas. La Lys foi uma hecatombe para os portugueses. Para os alemães foi o principio do fim.