Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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UE-Turquia

02 abr, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A Turquia chegou a negociar uma futura adesão à UE. Hoje o problema é outro.

Realiza-se hoje uma “mini-cimeira” entre a União Europeia e a Turquia na cidade búlgara de Varna. A Bulgária detém a presidência rotativa da UE durante o primeiro semestre deste ano. Não será um encontro fácil aquele que oporá David Tusk, presidente da UE, e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, ao Presidente da Turquia, Recip Erdogan.

Os dirigentes turcos consideram que o seu país é europeu, embora só uma pequena parte do seu território, incluindo Istambul, se situe na Europa.

Em 1963, dois anos depois da Grécia, a Turquia assinou um acordo de associação com a então CEE. O acordo com a Grécia desembocou em adesão, em 1981, o que não aconteceu com a associação turca. Mas os governantes turcos continuaram a pugnar pela entrada do seu país na UE. Em 1987 a Turquia apresentou o pedido formal de adesão à UE. Mas só no final de 1999 o Conselho Europeu reconheceu a candidatura turca, em pé de igualdade com outros candidatos.

As negociações começaram e até levaram a Turquia a mudar certas leis e práticas não compatíveis com os valores europeus. Foi o caso, por exemplo, da abolição da pena de morte em 2002. Mas dentro da União vários países não mostravam grande disposição para integrar a Turquia, um país de mais de 75 milhões de habitantes. Era o caso da Áustria, por razões históricas (o império otomano atacou várias vezes o império austro-húngaro), da França de Sarkozy e da própria chanceler alemã – Merkel – que receava o aumento da entrada de imigrantes turcos no seu país, nessa altura já muito numerosos.

Depois de governar dez anos a Turquia como primeiro-ministro, Erdogan tornou-se em 2014 Presidente da República. Nessa posição, Erdogan acentuou a sua viragem de muçulmano moderado não só para um crescente autoritarismo como para um islamismo afirmativo, em aberta contradição com a tradição turca de Estado laico, iniciada por Ataturk após o fim da I Guerra Mundial (que desmantelou o império otomano, dando origem à Turquia). Para isso teve que vencer a oposição dos militares, fiéis à herança de Ataturk.

Os militares turcos nem sempre respeitaram a democracia, desencadeando vários golpes de Estado. Mas nos últimos anos Erdogan fez pior: islamizou o país, instaurou uma repressão brutal, acabou com a liberdade de expressão e encheu as prisões de alegados oponentes ao seu regime. Parte desta situação decorre, segundo Ankara, da rebelião dos curdos que vivem na Turquia e aspiram à autodeterminação.

Há anos parecia próximo o sucesso de um processo de paz com os curdos, mas tudo voltou à estaca zero. Naturalmente que a prevista adesão à UE, se até aí era duvidosa, se tornou impossível. A via autoritária de Erdogan e o seu desrespeito pelos direitos humanos impedem-na. Erdogan já quer voltar à pena de morte…

Mas a UE e em particular a Alemanha precisam que a Turquia retenha no seu solo muitos dos refugiados que fogem às guerras do Médio Oriente e pretendem chegar à Europa. Em 2016 foi celebrado um acordo no qual as autoridades turcas se dispuseram a reter esses refugiados, em troca de uma grossa maquia europeia. Recentemente a Turquia recebeu da UE 3 mil milhões de euros suplementares para acolher refugiados sírios. Ironicamente, parte deles vítima de ataques do exército e da aviação da Turquia aos curdos sírios em Afrin. Para complicar ainda mais as coisas, Erdogan ameaça a França por este país apoiar as milícias curdas.

Os dirigentes turcos continuam a falar na pretensão de aderir à UE. Mas é uma manobra negocial para receberem mais dinheiro da UE. Na “mini-cimeira” de hoje o tema central da discussão será a retenção na Turquia dos refugiados.

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  • Geraldes Lino
    02 abr, 2018 Lisboa 19:31
    Por certo, que deve haver algum problema com Sarsfield Cabral, ao fingir ou desconhecer dos últimos massacres ocorridos em Gaza. Mataram dezasseis palestinianos e Sarsfield Cabral escreveu acerca da Turquia. O primeiro-ministro de Israel comportou-se como um terrorista, mas Sarsfield Cabral preocupou-se mais em escrever acerca de Erdogan. Israel comporta-se como a África do Sul nos piores tempos do «apartheid», mas isso não é problema para Sarsfield Cabral que gosta mais de ocupar o seu tempo a escrever acerca da Turquia e das suas meras tentativas em ser parte da União Europeia. Resumindo e concluindo, Sarsfield Cabral evoca sempre outro tema para esconder outro. Se explode uma bomba na Líbia, Sarsfield Cabral escreve sobre a Rússia. Se o Iémen é bombardeado pela Arábia Saudita, Sarsfield Cabral escreve acerca dos perigos do terrorismo no Irão.
  • newes
    02 abr, 2018 lisboa 13:36
    Com administração TRUMP a lutar por equilíbrio de transações no mundo globalizado os valores Ocidentais q ninguém sabe o q são foram banidos como uma prioridade.Acabram-se Com administração TRUMP acabou a saga de imposição democracias aos países de culturas diferentes através de ingerências ,primaveras,armas,quimicas etc.EUA estao interessados no equilíbrio económico,tecnonógico,balança comercial e marginalizam a base de apoio da CEE/EU, os tais valores europeus q já ninguém sabe o que são e muitos pensam que é um nova religião autoritária,fundamentalisma e assente em falácias ou objetivos inatangiveis.Grassam no Ocidente os extremismos radicais .logo deputados europeus não comunicam ou então não o fazem nos seus países porque a radicalização aumentará.CEE/EU tem que rever a comunicação com os povos que a constituem.Dveria ter meio comunicação 24horas na TV.Euro Newes reformulada?Nao resultaria.