Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​As raízes políticas de Trump

26 mar, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O presidente americano herdou dos neoconservadores de George W. Bush boa parte das suas posições.

Como se esperava, Trump despediu o seu Conselheiro Nacional de Segurança, general McMaster. O substituto, John Bolton, é um belicista do tempo de George W. Bush, tendo então sido embaixador na ONU. Entusiasta da invasão do Iraque (que Trump na altura criticou), Bolton é partidário de guerras preventivas – contra o Irão e a Coreia do Norte. Aplaudiu o Brexit e quer acabar com o acordo nuclear do Irão.

Esta nomeação evidencia algo a que se tem prestado pouca atenção: aquilo que Trump, que de intelectual tem pouco, herdou dos intelectuais neoconservadores que rodearam Bush filho. É verdade que este e o seu pai, um político respeitável, já publicamente se distanciaram de Trump. Mas foi George W. Bush quem, depois do trauma dos atentados do 11 de Setembro de 2001, iniciou a deriva nacionalista e hostil à ordem internacional construída pelos próprios americanos após a II Guerra Mundial.

A ideia da “America first” foi, sem esse nome, ardentemente advogada pelos “neo-cons”, que detestavam organizações multilaterais (incluindo a NATO e sobretudo a ONU) e até tratados internacionais. Washington, defendiam, devia fazer alianças pontuais com os países que para aí estivessem virados e desprezar o direito internacional. Era a lei da força da única superpotência, orgulhosa do seu poder depois do colapso do comunismo.

Os neoconservadores não se opunham à tortura de suspeitos de terrorismo, realizado em território americano, em Guantánamo e em inúmeras prisões secretas espalhadas pelo mundo. Obama travou a tortura, mas ela volta agora pela mão da nova Diretora da CIA, que aprecia esse tipo de violação dos direitos humanos.

As posições de extrema-direita dos “neo-cons” foram depois em larga medida assumidas pelo movimento radical Tea Party, que colonizou o Partido Republicano, afastando os moderados.

Nunca a Casa Branca havia sido ocupada por uma pessoa com o perfil de Trump, que assusta. Mas importa não ignorar quem, com mais cultura e experiência política do que ele, lhe preparou o terreno e indicou o caminho. Um caminho que Trump irá percorrer com cada vez menos obstáculos internos.

Julgava-se que Trump respeitava os generais e que estes seriam capazes de moderar algumas das suas loucuras. Infelizmente, parece que não. Só falta sair o chefe de gabinete, general John Kelly – possivelmente por iniciativa do próprio, farto do caos que supostamente dirige – para Trump ficar à solta.

Comentários
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  • Paulo
    26 mar, 2018 oeiras 16:31
    Trump é um grande negociador e conseguiu rebalançar a economia americana.É presidente do mais forte pais do mundo e não sou eu q não possuo o tabuleiro e peças de xadrez para balizar as sua medidas.O Mundo estava a precisar dum TRUMP.dum XI e de um Putin esta é a verdade para haver equilíbrio no planeta.A EU está excluída e depende destes atores,nunca soube auto determinar-se com eficácia e coerência e agir em conformidade,veja-se o caso mediático da Catalunha EU--zero.Terrorismo EU zero.Nao há discernimento para tolerar mas tb exigir.Os tao proclamados valores estão em mutação conforme o ator,isto não é plausível.etc,etc
  • António Costa
    26 mar, 2018 Cacém 07:54
    Arrogância e ignorância. A intervenção americana no Iraque, em 2003, provocou o enorme conjunto de problemas, de todos conhecida. Esta intervenção não se limitou ao "efeito dominó", numa zona do globo extremamente instável. O Irão, o "grande inimigo" dos EUA na região, foi o grande beneficiado. Na prática ( e é isso que sempre conta e interessa !), na prática, o Irão acabou por ganhar a guerra "Irão-Iraque" dos anos 80, do séc. XX. Na prática os EUA empurraram o Iraque para a "zona de influência" do Irão, provocando um série de guerras civis na região, como a que decorre ainda hoje, na Síria. Em politica internacional (como em tudo) convém ter conhecimentos básicos, para não se fazer asneira. No xadrez, perde-se um jogo. Em politica internacional, perdem-se centenas de milhares de vidas.