Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Nova vaga de euro pessimismo

13 mar, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Os problemas em Itália e baixa na adesão à democracia liberal não devem ocultar a derrota de Le Pen nas eleições presidenciais francesas.

Os resultados eleitorais em Itália, há dez dias, geraram uma nova onda de euro pessimismo. Embora haja quem ponha esperanças no movimento 5 Estrelas, que parece evoluir para posições menos hostis ao euro e à UE.

Entretanto, em França, no último fim-de-semana, a Frente Nacional de Marine Le Pen realizou o seu congresso.

Marine Le Pen foi a grande derrotada das eleições presidenciais francesas do ano passado. Depois, a popularidade do partido caiu significativamente. Daí a proposta de M. Le Pen para mudar o nome do partido para “Reunificação Nacional”, tornando-o menos agressivo.

Mas foi essa a estratégia que Marine seguiu nos últimos anos para ganhar votos. Estratégia que a separou do pai e fundador do partido, assim como da promissora sobrinha e do seu antigo aliado Philipot, que foi fundar outro partido. Aliás, em matéria europeia M. Le Pen manteve a sua rejeição da UE e do euro.

O congresso da ex-Frente Nacional contou com um orador especial: Steve Bannon, homem de extrema-direita que foi o ideólogo de Trump, mas afastado da Casa Branca há semanas.

S. Bannon saudou as posições anti-imigrantes e anti-UE de M. Le Pen, dizendo que a ideologia nacionalista, contrária à globalização e aos estrangeiros, “está do lado certo da história”. Faz lembrar os marxistas, que, no extremo oposto, alegavam conhecer cientificamente o sentido da história.

Não creio que S. Bannon, tal como os marxistas, tenha descoberto o sentido da história, se é que ele existe. Mas é óbvio existir uma reação popular contra a grande mudança que a globalização trouxe: a perda da liderança mundial pela Europa e, por enquanto em menor grau, pelos EUA.

Preocupante é que essa reação envolve uma crescente descrença nas democracias liberais e uma aproximação a regimes autoritários.

Em Portugal e em Espanha essa rejeição é menos sentida; muitas décadas de regime não democrático (sobretudo em Portugal) de algum modo vacinaram as pessoas quanto às pretensas maravilhas dos regimes autocráticos.

Xi Jinping foi há dias consagrado como Presidente vitalício da China, facto mundialmente encarado como natural. Putin vai a eleições, muito parecidas, pela sua falta de condições democráticas, com as que se realizavam em Portugal antes do 25 de Abril. A Turquia de Erdogan bate o recorde mundial de jornalistas na prisão.

Mais grave, dentro da UE países como a Hungria e a Polónia, além de outros, negam valores democráticos essenciais, como a separação entre o poder político e o sistema judicial ou o direito de livre expressão. Um problema que, mais cedo ou mais tarde, a UE terá de resolver.

Podemos desconhecer o tal sentido da história; mas a história mostra-nos como, há quase cem anos, as democracias liberais eram consideradas obsoletas, meras relíquias do século XIX. Modernos eram os totalitarismos nazi-fascista e comunista. Afinal, a democracia liberal acabou por prevalecer. E tal como os EUA foram decisivos na vitória dos aliados na II Guerra Mundial, que liquidou o nazismo, e no colapso do comunismo 35 anos depois, é bem possível que a recuperação das democracias liberais seja sobretudo impulsionada pelos americanos que não seguem Trump.

E os que ainda o seguem não tardarão a perceber que Trump governa para os ricos, desprezando os prejudicados pelas novas tecnologias e pela globalização, que o elegeram.

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