Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Tentar perceber

Todos perdem com guerras comerciais

10 mar, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O protecionismo acaba por prejudicar os países que dificultam as importações. Cada vez mais num mundo onde a produção se reparte por locais diferentes.

Em outubro de 1929 deu-se a queda brutal na bolsa de Nova Iorque. Seguiu-se a Grande Depressão, que alastrou a todo o mundo a partir dos EUA, onde só foi realmente ultrapassada pela entrada do país na II Guerra Mundial, na sequência do ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941. Esta foi a maior crise económica da história mundial e por isso é ainda hoje muito estudada pelos economistas, que tentam analisar os erros cometidos para combater a depressão, mas que acabaram por ter como resultado agravá-la.

Em 1930 os EUA subiram os direitos alfandegários sobre as importações. O objetivo era proteger o mercado interno americano da concorrência estrangeira. Mas o efeito benéfico desta medida protecionista durou pouco. Os parceiros comerciais dos EUA retaliaram, subindo os seus direitos alfandegários e até desvalorizando as suas moedas para ganharem competitividade nos mercados internacionais. O que levou a uma alta de preços na economia americana, acelerando falências e aumentando o desemprego. Ou seja, o protecionismo aduaneiro revelou-se contraproducente.

Quando Trump diz que as guerras comerciais são “boas e fáceis de ganhar” revela a sua profunda ignorância da história e da economia dos EUA. Ele provavelmente estava a pensar em guerras comerciais entre empresas, matéria na qual que terá alguma experiência. Mas as coisas passam-se de maneira bem diferente quando as guerras são travadas entre economias nacionais. Trump sempre se manifestou um protecionista, contra a tradição de livre comércio do partido republicano, pelo qual foi eleito. Várias personalidades de peso do partido republicano têm pedido a Trump que recue no seu protecionismo; mas o facto é que o presidente impôs a sua ideologia ao partido. O principal conselheiro económico de Trump, Gary Cohn (ex-presidente da Goldman Sachs), demitiu-se, abandonando a Casa Branca por discordar das medidas protecionistas. O que provocou alarme nos meios empresariais, levando o presidente a usar um tom menos agressivo.

Quem ganha e quem perde

Claro que há quem ganhe com protecionismos. As empresas diretamente protegidas, os seus gestores e trabalhadores, ficarão satisfeitos. Por quanto tempo, não sabemos. Mas sabemos que as empresas que gozam de proteções, aduaneiras ou outras, em regra tendem a relaxar e a tornarem-se menos competitivas. Para o conjunto da economia e da sociedade americana – para o bem comum do país – os benefícios arriscam-se a transformar-se em prejuízos. A subida de direitos aduaneiros aumenta os preços dos produtos alvos dessa subida. O que prejudica os consumidores e as outras empresas que utilizam bens e serviços das empresas protegidas. No caso do aço, inúmeras empresas americanas o importam e usam nos artigos que fabricam.

Assim, o protecionismo tende a acelerar a inflação; por isso será mais rápida a subida dos juros da Reserva Federal, já iniciada, para travar pressões inflacionistas. O próprio desemprego poderá subir, caso o encarecimento dos artigos sobre os quais incidem os agravamentos pautais leve à falência de outras empresas que usam esses artigos. É certo que o mercado a americano é enorme, o que atenua os efeitos negativos do protecionismo; mas nos dias de hoje a produção – de automóveis, por exemplo – não é em geral realizada num só país, integra produções e serviços em vários países.

O caso do aço e do alumínio, alvo de subidas de direitos alfandegários de 25% e 10%, respetivamente, também é estranho porque os EUA importam pouco aço da China, país que Trump critica porque mantém uma desequilibrada (em favor da China) balança comercial com os EUA. Os grandes fornecedores estrangeiros de aço no mercado americano são o Canadá e a União Europeia. Os EUA importam quatro vez mais aço do que aquele que exportam.

Em relação ao Canadá e ao México, parceiros dos EUA na NAFTA, uma zona de comércio livre, a ideia de Trump é prometer-lhes que não serão atingidos por estas medidas protecionistas se concordarem em reformar a NAFTA no sentido que Trump quer. Por exemplo, ele deseja que os agricultores americanos sejam melhor tratados no mercado do Canadá. E que o México trave o envio de droga para os EUA. Esta estratégia de negociação comercial revela quanto o presidente Trump detesta organizações e tratados multilaterais; a sua vida de homem de negócios não o habituou a esse mundo. Ele prefere o que é bilateral, onde o maior poderio dos EUA mais facilmente faz a diferença.

Aliás, Trump confunde défices comerciais (exportações inferiores a importações) com derrotas económicas, o que manifesta o seu desconhecimento de como funciona a macroeconomia. E politicamente sujeita-se a comentários como o que Draghi fez na quinta-feira: “se há impostos aduaneiros contra os aliados, podemos questionar quem são os inimigos”.

Estúpido, mas necessário

Poderá perguntar-se: se o protecionismo é, em última análise, prejudicial até para os países que o praticam, então que sentido tem retaliar? Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, disse que esta poderia ter que tomar “uma medida estúpida” – retaliar – mas necessária. E necessária porque não existe outro meio para responder a iniciativas protecionistas unilaterais. Daí ser provável que a guerra comercial que agora se esboça se intensifique daqui para a frente. Todos perdem.

Na escalada da retaliação e contra-retaliação Trump já levantou a possibilidade de os EUA fazerem pagar mais direitos alfandegários aos automóveis europeus no acesso ao mercado dos EUA. Os tempos que aí vêm não serão simpáticos.

O ambiente protecionista que se está a instalar na economia internacional não deve fazer esquecer a nós, portugueses, que temos um estreito mercado interno, dentro do qual só teremos a ganhar se conseguirmos uma saudável concorrência. O Prof. Abel Mateus, que foi o primeiro presidente da Autoridade da Concorrência, escreveu no “Público” de quarta-feira um artigo com o título “Portugal precisa de uma política de concorrência mais ativa”. A “promoção da concorrência é essencial para o funcionamento eficiente da economia de mercado e para a inovação e o crescimento”. Um alerta a ter em conta.

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